23 de jun. de 2003

Desafios do jornalismo


CARLOS ALBERTO DI FRANCO

As fraudes praticadas por jornalistas do “The New York Times” continuam dando o que falar. Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal, Gay Talese vê importantes problemas a partir da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial. Embora faça uma vibrante defesa do Times, “uma instituição que está no negócio há mais de cem anos”, Talese, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa. “Não fazemos matéria
direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Os dois editores não viam a cara do repórter que eles contrataram. E as reclamações de editores de que Jayson Blair deveria parar de escrever foram feitas por e-mail. Isso é muita tecnologia no jornalismo. Não se anda na rua, Não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, Não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se Está conversando”, conclui Talese. Falta de qualidade e deslizes éticos têm conseqüências. Produzem, a médio ou longo prazo, cicatrizes na credibilidade.


Um amigo gozador costuma dizer-me que a expressão “jornalismo de qualidade” é contradit?ria em si mesma. Outro dia, quis exemplificar-me esta sua opinião. “Boa parte do noticiário de política — dizia — Não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, Não questiona nada, Não melhora a vida das pessoas.” O desinteresse crescente dos leitores com as páginas de política, por exemplo, (e o comentário do meu amigo é uma amostragem do que está passando pela cabeça
do consumidor de jornal), está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração, a crise da reportagem e
a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.


O uso de grampos como material jornalístico virou, infelizmente, ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter. O grampeamento, além disso, continua sendo um delito. Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios. De uns tempos para cá, no entanto, o leitor passou a receber dossiês que, freqüentemente, Não se sustentam em pé. Como chegam, vão embora. Curiosamente, quem os publica Não se sente obrigado
a dar nenhuma satisfação ao leitor. Dossiê deveria ser ponto de partida, pauta. Entre nós, virou matéria para publicação. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos (ou quase todos), fechados no nosso autismo, emparedados no ambiente rarefeito das redações.


Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo está virando show business. Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres Estão sendo empurrados para o incômodo papel de uma peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento. Urge combater as manifestações do jornalismo declaratório e assumir, com clareza e didatismo, a agenda do cidadão. É preciso cobrir com qualidade as quEstáes que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias
de comunicação, mas nos problemas de que os cidadãos estão
reclamando.


Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada acabam sendo instrumentalizados pela fonte. Sobra declaração leviana, mas falta apuração rigorosa. A incompetência foge dos bancos de dados. Na falta da pergunta inteligente, a ditadura das aspas ocupa o lugar da informação. O jornalismo de registro, burocrático e insosso, é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. Quando
editores não formam os seus repórteres; quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline; quando o planejamento é uma abstração; quando as pautas não nascem da vida real; quando não se olha nos olhos dos entrevistados, está na hora de repensar todo o processo.


A autocrítica interna deve, além disso, ser acompanhada por um firme propósito de transparência e de retificação dos nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é relativamente fácil.
Mas admitir a prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade. Só assim conseguiremos que os leitores, cada vez mais seduzidos pelas facilidades oferecidas pela informação virtual, percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um guia insubstituível para a navegação na vida real.




CARLOS ALBERTO DI FRANCO é diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística.

21 de jun. de 2003

A diferença

Todos sabem que Lula recebeu o prêmio 'Príncipe de Astúrias', o mesmo que FH recebeu em 2000. A diferença é que Lula recebeu em apenas 6 meses de trabalho, enquanto FH levou 6 anos. É por isso que acredito neste governo, agora não se brinca mais.

13 de jun. de 2003

A tragédia da Palestina e possíveis consequências

A esperança na possibilidade de sucesso do plano de paz para a Palestina
patrocinado pelo presidente americano George W. Bush durou menos de uma semana.
A troca de atentados terroristas entre o governo de Israel e o Hamas que tem
horrorizado o mundo nos últimos três dias praticamente põe fim às
perspectivas de que o "mapa da estrada" de Bush conduza a região a
qualquer destino seguro.


Nunca é demais enfatizar a importância que aquele pequeno pedaço
de terra tem para o futuro da humanidade. Grande parte do ódio que tem
semeado algumas das piores tragédias e conflitos contemporâneos
tem sua origem na milenar disputa pelos locais sagrados cristãos e islâmicos.
É lastimável que não se tenha conseguido chegar a um entendimento
para confronto tão antigo e primário, apesar de todo o progresso
material e científico obtido pelos humanos em especial no decorrer do
século passado.


O impasse atual é ainda mais frustrante porque ele ocorre depois de
um período em que a chance de acordo definitivo para o assunto esteve
pertíssimo de acontecer, com os acordos de Oslo e Washington. Foi na
reunião entre Iasser Arafat, Ehud Barak e Bill Clinton em Camp David,
em 2000, que a paz esteve mais próxima de se concretizar. O então
premiê israelense ofereceu, sob pressão de Clinton, a criação
de um Estado palestino composto por 100% da faixa de Gaza, 95% da Cisjordânia,
a maior parte de Jerusalém, inclusive a cidade velha, o fim dos assentamentos
judeus em territórios palestinos. Só o direito de retorno de refugiados
palestinos a Israel é que não ficou acertado em Camp David. O
malogro dessa cúpula resultou na sucessão de violências
que levou Ariel Sharon ao poder e à situação atual.


A omissão do presidente Bush durante os dois anos e meio iniciais de
sua administração contribuiu muito para os problemas de agora.
Ela incentivou Sharon a agir a seu estilo, sem freios. A imobilidade de Arafat
também foi decisiva para o beco sem saída em que a questão
se encontra. Ela o enfraqueceu entre seu próprio povo e o isolou diante
da maioria da comunidade internacional.


A tardia adesão de Bush ao esforço para a busca de uma solução
ocorreu menos por convicção pacifista e mais como o pagamento
ao Reino Unido pelo seu apoio na invasão do Iraque e à França,
Alemanha e Rússia pela aprovação do projeto de reconstrução
sob a liderança americana daquele país. O engajamento dos EUA
é absolutamente vital para o êxito de qualquer negociação
no Oriente Médio. Neste momento, ela não parece ser nem entusiasmada
nem - mais importante - minimamente neutra.


Os 33 meses desta nova Intifada levaram Israel à pior recessão
econômica de sua história e jogaram 60% da população
da Autoridade Palestina para baixo da linha de pobreza. É certo que a
economia israelense e palestina é uma fração mínima
da mundial. Mas os efeitos da conflagração naquela área
têm sido desastrosos há décadas e poderáo ser calamitosos
se a guerra prosseguir e se ampliar.


A desmoralização que o governo Bush impôs à Organização
das Nações Unidas quando resolveu atacar o Iraque sem a permissão
do Conselho de Segurança retira daquela organização - e,
na prática, de qualquer outra entidade multilateral - o poder para intervir
no processo com alguma expectativa de sucesso.


Assim, está em Washington a única oportunidade viável
de paz. Àcomunidade internacional só cabe pressionar os EUA para
que haja com determinação e imparcialidade. Inclusive com o argumento
óbvio - mas infelizmente quase nunca compreendido pelos atuais governantes
americanos - de que os EUA e seus cidadãos com certeza estarão
entre as principais vítimas dos desdobramentos do fracasso da diplomacia
na Palestina.


O Brasil, que também sofrerá as sequelas do agravamento do conflito
entre israelenses e palestinos, tem autoridade moral e política para
ajudar a pressionar os EUA, já que neste país judeus e muçulmanos
têm uma antiga tradição de convivência pacífica
e cooperativa em todos os aspectos.


fonte: Valor Econômico

10 de jun. de 2003

Quem financia as drogas?

Querer acabar com o tráfico, ou, pelo menos, diminuir o seu poder através do estrangulamento do braço econômico desta atividade ilícita é a melhor idéia já surgida nos últimos anos no Brasil. O difícil é focar o seu braço econômico.

Vemos na mídia uma tentativa de culpar os viciados (consumidores) pelo dinheiro ganho com o tráfico, como se o consumidor final é que fosse o verdadeiro responsável. Mas, como esta droga chega ao consumidor final (varejo)? Vêem através dos atacadistas.

Se lembrarmos o caso do cantor Belo, teremos uma pálida idéia de como isso pode acontecer: a droga é financiada por pessoas com alto poder aquisitivo para, então, ser vendida no varejo.

Qualquer dinheiro desviado das fontes legais de fiscalização econômica acaba financiando o tráfico. E essa é a propaganda que deveria ser veiculada. Porém, todos acham normal sonegar, afinal é um país com carga tributária onerosa ao contribuinte.

É por isso que aplaudo este novo governo, a secretaria para combater a lavagem de dinheiro é a pedra fundamental para tentar acabar com o tráfico, ou, pelo menos, diminuir o seu poder. São cerca de 100 bilhões de reais sonegados e lavados e será que nada veio ou vai para o tráfico?
Quanta besteira se diz no futebol

Uma das grandes revolta na mídia esportiva é referente à convocação última de Carlos Alberto Parreira da seleção brasileira de futebol. Quanta besteira se diz sobre o assunto, principalmente a resposta que tanto pedem jornalistas, paulistas em geral, sobre a razão da exclusão do goleiro Carlos, do Palmeiras, desta lista.

A primeira besteira é comparar as escalações. Quem tirou Marcos da seleção não foi Júlio César (Flamengo) ou Fábio (Vasco), foi o Dida. E quem respondeu esta pergunta foi o próprio treinador, ao dizer que preferia experimentar alguns jogadores e que o goleiro Marcos não precisava dessa observação, digamos, mais detalhada. Assim como o Dida! Que não é nenhum garotinho. [Sendo carioca, até dou graças a deus por ele não ser garotinho]. Então, quem tirou o Marcos foi o Dida, afinal este é o seu concorrente direto.

A segunda besteira decorre de se negar o óbvio da primeira, e despenderem quase uma semana sem entender, e, pelo visto, neste dilema ficarão: de que o Dida é um grande goleiro, conquistou um título importantíssimo na Europa recentemente e, por tudo isso, está em melhor fase do que o Marcos e como goleiro principal ficará.

A terceira besteira é não querer ver que o Marcos não anda merecendo a seleção. Teve aquela mazela, bronquite eu acho, mal explicada. Está, como diria no Rio, numa sinistra. Ou seja, passando por um mal momento e o Parreira não quer levar o principal goleiro como reserva. Deste jeito, o treinador leva um goleiro experiente e dois novatos à uma competição oficial entre seleções, o que não é pouca coisa não, e será uma ótima experiência à esses dois garotos.

A quarta besteira é não entender que o padrão da convocação do Parreira foi totalmente coerente. Foram oito novas faces no time dele, quatro vieram do corte de titulares por problemas médicos, mas, mesmo assim, foram oito novatos em seleção brasileira.

Mas aí, prefere-se pensar que Marcos não foi convocado sem explicação, de dizer que ele é melhor do que os outro dois goleiros convocados para a reserva, e, portanto, merecia a vaga. E nesse devaneio, insinuam de que a não-convocação deveu-se a intrigas pequenas: a de que Zagalo vetara o veterano goleiro por não gostar da história mal contada da doença. Afinal, reza a lenda que Zagalo não convoca ninguém que ele não merecer a amarelinha. Só que esquecem o fato de que quem convoca é o Parreira. E este é um quinto erro.

Nossa mídia adora polemizar, venera o sensacionalismo. Mesmo aqueles que se cobrem com o véu da verdade, atrás de palavras legais e sacerdotais, se mostrando acima do bem e do mal, cujos comentários ganham o status de inabaláveis, tendo a palavra como verdade absoluta, mesmo que se negando, polemizam. Este é um erro grave que sempre leva à besteira.
Ganhei um cópidésqui

Àquele que gosta de aqui adentrar e corrigir alguns e pequenos erros, esteja certo de que a vaga é sua.
O fim de um enfermidade

Sério, se tiverem uma sinusite, não vacilem, vacinem, se possível. Tô estrupiado, mais de duas semanas com dores de cabeça, inflitração de líquido nas cavidades cranianas e ameaçado de intervenção cirúrgica. Ainda bem que o atibiótico surtiu efeito e se não tivesse a idade que tenho (31), certamente teria ficado internado em hospital. Sinusite é soda...