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20 de out. de 2007

Doutrina do Choque

Para aqueles que gostam da idéia de pé na porta, faca na caveira. Que crêem na aniquilação dos terroristas e bandidos (sem matar inocentes, é claro!), vale a pena ler este livro. Se não tiver estomâgo, assista ao vídeo abaixo.


6 de out. de 2007

Modelos de Choque

Quando vemos a 'inteligenza midiática' (?) citar que os governos do Rio e do Espiríto Santos empregam sistemas de gestão sintonizados com as mais modernas técnicas administrativas existentes do mundo devemos pensar em quê?

A recente crise nos EUA só não foi pior pelos números de empregados no governo. Ou seja, o país que é modelo para a maioria dos brasileiros, o louvor do liberalismo, a esfínge do estado mínimo, se safou de entrar (ao menos em números) na recessão devido aos empregados gerados pelo estado. Se formos comparar todas as desigualdades entre nossos países, perceberemos que o aumento do estado, no caso brasileiro, é mais do que justificado.

A desigualdade é chocante. O modelo de gestão também. Com uma economia robusta, forte mercado interno, os EUA possuem uma workclass cada vez mais ativa em protestos. A falência do sistema de saúde, a crise imobiliária, abaixa de oferta de empregos na iniciativa privada mostra que o estado precisa ser atuante para garantir o bem-estar de uma nação. Ainda agora, acabaram de conceder créditos de U$ 20 bi para estudantes e conceder perdão para dívidas de servidores públicos.

Esta é a diferença, de como diria os palácios de mídia, de um povo com o mínimo de sentimento cívico. Um povo, cuja sociedade é atuante e fiscalizadora. Como os países nórdicos, onde possuem um fundo para gerações futuras, que pressionam grandes como a Wal-Mart a reverem as condições de seguridade do trabalho. E conseguem. Enfim, este é o modelo que deveríamos enxergar. Mas a classe média brasileira só viaja para os EUA. E então ... já viu né.

6 de jul. de 2005

EUA no Paraguai

O governo de Assunção acaba de autorizar o estacionamento de tropas norte-americanas em seu território. Pela primeira vez teremos bases estrangeiras permanentes na América do Sul, na estratégica região da usina de Itaipu.

MAURO SANTAYANA da Agência Carta Maior em 4/7/2005

Com os olhos em Roberto Jefferson, não estamos atentos ao que se passa ali, no Paraguai. O governo de Assunção acaba de autorizar o estacionamento de tropas norte-americanas em seu território. Pela primeira vez teremos bases estrangeiras permanentes na América do Sul, e em região estratégica continental. Nessa tríplice fronteira se encontra a maior represa do mundo, a de Itaipu, de cuja energia todo o território paraguaio e grande parte do território brasileiro dependem. A região é também das mais férteis do mundo e se encontra mais ou menos na eqüidistância dos dois oceanos.

Temos relações historicamente difíceis com o Paraguai, desde a guerra contra López. Os revisionistas procuram culpar o Brasil pelo conflito, mas a isso fomos levados pelo fechamento do Rio Paraguai aos nossos barcos e, em seguida, pela invasão de grande parte do território do Mato Grosso. Não coube ao Brasil a iniciativa da agressão. É certo que o genro do Imperador Pedro II foi particularmente cruel com a população derrotada e, talvez por isso, tenhamos cedido em tudo nas nossas relações com o país vizinho.

Não sabemos se o Paraguai nos comunicou essa decisão perigosa. É provável que não. A submissão paraguaia aos Estados Unidos é tão forte que este colunista, há quarenta anos, ao descer em Assunção, encontrou o aeroporto tomado por tropas formadas, ao lado de colegiais que agitavam bandeirolas norte-americanas. Procurou saber o que ocorria: o funcionário do Departamento de Estado que cuidava dos assuntos do Paraguai estava chegando em visita oficial a Assunção.

Conforme divulgou a revista Newsweek, logo depois de 11 de setembro, o sub-secretário da Defesa, Douglas Feith, sugeriu a Bush a invasão da tríplice Fronteira por tropas aerotransportadas, a fim de capturar membros da Al Qaeda e ocupar permanentemente a região. Alguém achou melhor a invasão do Iraque, mais viável politicamente. Tudo isso nos leva a pensar um pouco no que nos está ocorrendo. É bem provável que Washington tente retirar vantagens da crise interna. Um país dividido, conforme a velha advertência de Lincoln, é presa fácil para os seus adversários.

Como os Estados Unidos não podem viver sem guerras, e estando suas tropas escorraçadas do Iraque, não seria de admirar se viessem a nos agredir sob o pretexto da presença de muçulmanos em Foz do Iguaçu. Tudo isso deve convocar a nossa reflexão, a fim de esclarecer logo as denúncias que atingem o governo e o Partido dos Trabalhadores, a fim de que possamos nos organizar para a eventual defesa da soberania territorial do Brasil. Temos, ali, o exemplo histórico de provocações e de ocupação de nosso espaço soberano.

Os Estados Unidos, hoje, mais do que nunca, estão desrespeitando todas as regras de convívio internacional, a ponto de o mais submisso governante europeu, Sílvio Berlusconi, ver-se obrigado, na última sexta-feira (1º), a pedir explicações oficiais ao embaixador norte-americano pelo fato de a CIA ter seqüestrado um clérigo muçulmano em Milão e o haver transferido clandestinamente para fora do país. A Justiça italiana determinou a prisão dos 13 agentes da CIA envolvidos no episódio.

Se assim agem contra um país da União Européia com o qual têm as relações mais fraternas ao longo da História, que podemos deles esperar quando nos encontramos fragilizados pela crise, e pela entrega de setores estratégicos aos estrangeiros, durante o governo neoliberal de Fernando Henrique, quando disputamos com o Paraguai a vassalagem a Washington?

16 de jun. de 2005

Veritas

Arquivo X do Golpe
por Bruno de Assis Pessoa - brap@uol.com.br
Como PSDB, Veja & CIA articulam segundo golpe de estado em sete anos. Uma história de assassinatos, corrupção, abuso de menores e roubo.

Como ocorre ciclicamente, inicia-se a fase final de mais um golpe de Estado na América Latina, desta vez destinado a depor o presidente Luís Inácio Lula da Silva, legitimamente eleito pelo povo brasileiro. A exemplo do que ocorreu no Chile, em 1973, os neoliberais da elite pseudo-intelectual, os donos de latifúndios, os empresários da "imprensa" falida e os serviços de inteligência norte-americanos, preparam a derrubada do ex-metalúrgico Lula.

Os métodos do golpe, entretanto, se sofisticaram. Se Allende foi assassinado por projéteis de fogo, Lula está sendo envenenado por uma bem estudada campanha de desqualificação. Curiosamente, os "crimes" que lhe são atribuídos constituem-se em práticas criadas e mantidas por seus próprios inimigos. O grupo de ataque ao governo foi apelidado de Grupo Rio. Não se trata de uma homenagem ao Estado, mas de uma referência à Rua Rio de Janeiro, em Higienópolis, residência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O luxuoso e requintado apartamento foi palco das primeiras reuniões que traçaram a estratégia para o golpe de Estado. Na primeira assembléia, reuniram-se 13 pessoas. Na segunda, foram 19, incluindo um norte-americano que chegou num carro do consulado dos EUA em São Paulo. Depois do encontro, vários seguiram para uma casa de prazeres eróticos na Avenida Bandeirantes, nas imediações do aeroporto de Congonhas.

Em Português trôpego, o tal "gringo" teria falado mais sobre o presidente venezuelano Chavez do que sobre o plano para apear Lula do poder. A frase paradigmática de FHC neste dia teria sido: "É preciso paciência para desequilibrar, aos poucos; arrancar cada dedinho do pé do sátiro". Alguns bateram palmas para aplaudir a frase mal construída, mas que definia o projeto de ação do grupo, que FHC (pretendendo-se galhofeiro) preferiu chamar de "célula Sorbonne". Aliás, quando regado a bom vinho, o ex-presidente adora atribuir apelidos a seus desafetos: José Sarney é o "Morsa", Itamar é o "Costinha" e Ciro Gomes é o "Parasita".

Decidiu-se que tanques e canhões seriam substituídos por papel impresso e telas iluminadas. Poderosos senhores da comunicação foram chamados a integrar o grupo. Nessa época, o setor já vivia uma grave crise, com empresas atoladas em dívidas com bancos, à beira da insolvência. Os que não haviam se arrumado com o novo governo tinham a chance de receber polpudas contribuições de apoiadores externos. Os aliados de primeira hora foram Roberto Civita, da Editora Abril, e a chamada banda podre da família Mesquita, os descendentes de Ruy Mesquita.

O falido e o ladrão doméstico
A idéia era destacar o clã Mesquita para uma luta prévia, destinada a desacreditar a prefeita Marta Suplicy. Os jornais da casa deveriam criar "pautas" para que o resto da imprensa corroesse a popularidade da prefeita. O projeto era fincar a bandeira do Grupo Rio em São Paulo a partir da eleição de José Serra. Civita teria como incumbência fomentar uma ação nacional por meio da revista Veja. Civita e FHC mantêm antiga amizade. O grupo do ex-presidente ajudou a criar o modelo de ideologia que é propagada pela revista, uma colorida e didática cartilha neoliberal. Civita é conhecido por sua língua afiada e descontrolada. Certa vez, numa reunião com executivos do grupo, chamou Pelé de "negrinho do pastoreio". Em outra ocasião, disse que a ex-ministra Erundina era "uma gabirua que fedia a merda".

As histórias de Veja misturam roteiros de filmes sobre a Máfia com bizarrias hard-core. Durante muitos anos, o feitor de Civita em Veja foi o truculento Eduardo Oinegue Faro, uma espécie de Jason Blair brasileiro, capaz de "fazer (ou inventar) qualquer negócio", seja para vender revista ou para destruir uma personalidade pública. Exagerado em suas doses, Oinegue foi transferido para a revista Exame. Há poucos meses, o "padrinho Civita" sofreu ao saber que seu pupilo o estava roubando, exatamente conforme nos roteiros dos filmes sobre a Cosa Nostra. Oinegue Faro estava embolsando mais de um milhão de Reais em negócios inescrupulosos com um lobista. Triste fim para uma história de confiança na "famiglia".

O jornalista que tinha um "pepino" a resolver
O redator-chefe de Veja é outro protagonista de casos escabrosos. Depressivo crônico, tem fixação doentia pelo tema solidão. Vítima de impulsos suicidas, julga-se inferior e não devidamente reconhecido. Parte de sua conduta patológica gerou um livro interessante e revelador: o Antinarciso. Certa manhã, a secretária de Veja recebeu um telefonema insólito de Sabino, que estava num hotel fubango no centro de São Paulo. A dedicada funcionária teve de se desdobrar para encontrar um proctologista do hospital Albert Einstein. Foram três horas de angústia até que o especialista chegasse ao quarto 62. Quem quiser, pode checar. Mais uma eternidade até que o enorme pepino pudesse ser extraído do reto do jornalista.

Assassino pago em ouro
No caso do Grupo Estado, é de se admirar que a família tenha recorrido aos serviços de consultoria de um ex-funcionário para desenvolver seu plano de ação. O escolhido foi Antonio Marcos Pimenta Neves, ex-chefão do jornal O Estado, amante rejeitado que, em 2000, assassinou na ex-namorada, a também jornalista Sandra Gomide. Por quê? Porque Pimenta Neves sempre manteve uma relação de amizade com Fernando Henrique Cardoso. Aliás, o crime aconteceu exatamente em Ibiúna, município a 70 quilômetros de São Paulo, onde o ex-presidente tem uma de suas casas de campo.

Violador de crianças
Entre os articuladores políticos do golpe, a liderança da tropa de choque coube ao senador amazonense Arthur Virgílio, um homem que se confessa atraído pelo submundo. Virgílio é um alegre freqüentador de bordéis e tem queda por "carnes novas". O líder do PSDB foi o carrasco da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Graças a sua dedicada (e desesperada) atuação, o vice-governador do Amazonas, Omar Aziz (PFL), escapou da Justiça.

Os relatórios da comissão mostravam que Aziz era também cliente de uma rede de prostituição envolvendo adolescentes de até 16 anos. Em Manaus, o comparsa de Virgílio participava de um esquema de aliciamento de menores com a conhecida cafetina Cris. Os depoimentos da CPI traziam o depoimento de uma mãe que comprovava a exploração sexual de sua filha de 14 anos. Na época, Virgílio tentou negar que também tivesse presenteado a menina com jóias e dinheiro.

Espancador de mulheres
No Grupo do Rio, a alta intelectualidade está representada também por José Arthur Gianotti, uma espécie de Maquiavel tupinambá, cuja função é fornecer ao amigo FHC pílulas filosóficas que previnam contra eventuais crises de consciência. Gianotti é o homem das éticas relativas, o dourador de fins que justifiquem qualquer meio ignominioso de busca do poder. Homem de estresses e ego inflado, é daqueles que não admitem refutações, características conhecidas de seus "colegas" de Universidade de São Paulo. Anos atrás, durante um debate com a esposa, irritou-se e a espancou. A mulher acabou perdendo parcialmente a audição de um ouvido. De suas histórias escabrosas, esta é a que mais se ouve nos corredores da USP.

O mesmo ocorreu com os casos de suborno contidos na chamada Pasta Rosa. O então Procurador-Geral, Geraldo Brindeiro, recorreu ao jeitinho brasileiro para engavetar as denúncias. Agora, o que mais espanta foi a complacência da imprensa com a compra de votos para a mudança da Constituição que permitiu a reeleição de FHC. João Maia e Ronivon Santiago, Zila Bezerra, Osmir Lima e Chicão Brígido eram apenas a ponta do iceberg de um gigantesco sistema de corrupção gerenciado pelo PSDB. Como sempre, a imprensa diminuiu a importância dos fatos, na mesma medida em que exagera qualquer irregularidade no governo Lula.


Como comprar um jornalista a preço de banana
Em todas essas ações, a CIA deu total apoio a seus parceiros do governo tucano (o governo do Apagão), inclusive com municiamento financeiro. Jornalistas e políticos foram comprados em verdadeiras operações de guerra, numa reedição das PP e Kukage, nas quais as ações jamais são atribuídas ao governo norte-americano, mas a outros grupos ou instituições. Muitas dessas ações são tão escancaradas que não exigem qualquer sigilo, conforme admite o ex-chefe do FBI no Brasil, Carlos Costa, em suas entrevistas a Carta Capital. As sedes do poder, em Brasília, estão grampeadas e os Estados Unidos monitoram o Brasil 24 por dia.

Um bilhete deixado na mesa de reunião do Grupo Rio estampava uma lista de formadores de opinião que deveriam ser convencidos a receber "suporte" do grupo externo. Alguns dos 31 (sobre) nomes eram: Rodrigues, Noblat, Gancia, Carmo, Fibe, Nunes, Alencar, Casoy, Marques, Schwartsman e Cony. A base para as ações de flerte seriam fornecidas pelos senhores Mac-Laughlin , Wilkinson e Rohter.


A farsa de Maurício Marinho
Nem o mais ingênuo dos corruptos recebe pagamentos em sua sala de trabalho, em bolos semelhantes àqueles manuseados por donos de postos de gasolina. Maurício Marinho, que é esperto demais, vendeu-se como ator e não como facilitador. Afinal, a "bola" é pequena demais para quem corre tanto risco.

Depois que a poeira baixar, MM certamente vai desfrutar de seu verdadeiro butim. Quem vê a fita com atenção, percebe que os atores estão mal treinados.


Assassinato de Luis Eduardo Magalhães: o primeiro golpe de Estado do Grupo Rio – 1998
O Grupo Rio não estava oficialmente constituído naquela época, mas seu núcleo duro já existia. À época, estava morrendo o velho "Serjão", gerente de todo o sistema de corrupção e coleta de propinas do PSDB. Simultaneamente, uma nova estrela despontava no firmamento político: Luís Eduardo Magalhães. Segundo os analistas do governo, LEM tendia a se tornar um candidato imbatível nas eleições presidenciais. Além disso, o deputado confessara a amigos que no momento certo desbarataria a quadrilha que disseminava a corrupção por Brasília.

Morto "Serjão", temeu-se que LEM desencadeasse uma pronta ação de limpeza no legislativo. Nesse momento, a articulação entre o governo e seus parceiros externos mostrou-se eficaz. A "inoculação" teria ocorrido, morbidamente, durante os serviços fúnebres do corruptor-mor. Os requintes da operação incluíram a prescrição de uma dose que permitisse a morte num 21 de Abril. A sofisticação simbólica tinha um motivo: uma assinatura sinistra. O serviço de assassinato encomendado a Newton Cruz por Maluf, em 1985, fora repassado a outro grupo. Tancredo Neves, assassinado, viria a morrer também num 21 de abril.

Opinião
"No governo tucano, a denúncia do mensalão não teria provocado grandes marés". O fantasma dos militares não existe, mas nas últimas colunas que escreve para o jornal Valor Econômico, publicadas às quintas-feiras, ele farejou um "golpe branco" contra Lula no movimento da oposição e, principalmente, do PSDB. Pró-reitor da Universidade Candido Mendes, Wanderley Guilherme dos Santos chegou a ironizar os tucanos, resgatando a imagem de Carlos Lacerda, um político que andava sempre com uma proposta de golpe na cabeça: "O lacerdismo mudou-se para São Paulo", escreveu, após pensar sobre a frase do ex-presidente Fernando Henrique de que havia uma "crise institucional" no País.

Nesta entrevista a CartaCapital, ele explica a crise pela missão político-eleitoral dos tucanos de algemar o governo para enfraquecer a candidatura Lula em 2006. Diz que, para alcançar esse objetivo, o PSDB chegou a pensar em um "golpe branco", o impeachment, a partir das denúncias de corrupção. Mas recuou. Acredita que o partido não promoverá a iniciativa, mas, se ela surgir, apoiará. Ou seja, se o cavalo passar arriado, o ex-presidente Fernando Henrique montaria. CartaCapital: Há uma crise política grave neste momento? Wanderley Guilherme dos Santos: A palavra crise entrou no vocabulário diário da política desde janeiro de 2003. Falou-se de crise todos os dias. Agora, sim, há uma crise política. É uma crise importante. Mas é uma crise normal em sistemas democráticos funcionando, operando. Quer dizer, democracia com uma oposição musculosa como não havia, por exemplo, no governo Fernando Henrique. (leia o post abaixo com a entrevista completa de Wanderley Guilherme dos Santos)

29 de abr. de 2005

Um alemão conservador

UM ALEMÃO CONSERVADOR

JOSÉ LUÍS FIORI


“ O cristão, o apóstolo, foram criados para crescer. Devem viver animados por uma santa inquietação de divulgar a todos o dom da fé...devem sair e pregar a palavra do Senhor, porque isto ajuda a gerar frutos, frutos permanente. Só dessa maneira a terra se tornará de vale de lágrimas em jardim de Jesus”

Joseph Ratzinger, homilia “pro-eligendo papa”, FSP, 20/04/2005



Primeiro, foi a derrota de John Kerry, nos Estados Unidos, e agora, a vitória de Joseph Ratzinger, no Vaticano, dois revezes contundentes para os liberais de todo o mundo. Muitos supunham que depois do primeiro governo Bush, e do longo papado conservador de João Paulo II, seria hora dos liberais voltarem ao poder, segundo uma regra de alternância que muitos analistas consideram indispensável ao equilíbrio dos sistemas, como na fantasia dos economistas. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário, e no caso do Vaticano, o novo papa alemão tem um perfil ainda mais radical e intolerante do que seu antecessor.

Não é fácil de explicar a vitória de Ratzinger, mesmo quando se saiba do poder que detinha dentro do colégio eleitoral que foi nomeado - quase todo - pelo seu antecessor. De um ponto de vista menos institucional ou eclesiástico, entretanto, uma primeira pista para explicar esta continuidade conservadora pode ser encontrada na própria fragilidade intelectual dos seus adversários. Basta ler com atenção as suas respectivas agendas e propostas para perceber que os liberais alinhados em torno do Cardeal Carlo Maria Martini, assim como os que apoiaram a candidatura de John Kerry, não foram capazes de oferecer uma alternativa concreta à agenda conservadora mundial destes últimos 30 anos. Como se os liberais também tivessem sido atingidos pela epidemia ou anemia que dizimou o pensamento social-democrata, na década de 1990.

Da perspectiva desta hegemonia conservadora das últimas décadas, a escolha de Ratzinger aparece como um ponto apenas dentro de uma trajetória política e ideológica de mais longo prazo, que chega até os “neoconservadores” do governo Bush, mas que começa em Roma, exatamente na hora em que o Vaticano surpreendeu o mundo católico – em 1978 - ao transformar um cardeal obscuro, proveniente de uma das comunidades católicas mais reacionárias e piegas da Europa, no Papa João Paulo II. Sua eleição foi o verdadeiro ponto de partida ideológico deste longo período conservador que se prolonga até hoje, começando na forma de uma resposta aos movimentos emancipatórios dos anos 60 e à grande crise econômica da década de 70. Para ser fiel as datas, Karol Wotjyla foi eleito em 1978, Margareth Thatcher , em 1979, Ronald Reagan, em 1980 e Helmut Khol, em 1983. Suas eleições não fizeram parte de uma mesma estratégia, nem obedeceram a uma cadeia coordenada de comando ou decisão. Mas todos eram profundamente conservadores, e suas idéias e ações convergiram em torno de uma mesma estratégia anti-comunista, criando-se uma força política e ideológica coesa que derrubou o mundo socialista, atravessou os anos 90 e chegou até os nossos dias cada vez mais conservadora, autoritária e expansiva. Já se estudou e falou muito das transformações econômicas, financeira e geopolíticas que começaram com a crise mundial dos anos 70, em particular das reformas e políticas neo-liberais, mas talvez não se tenha dado a devida atenção à dimensão cultural e religiosa desta expansão vitoriosa dos conservadores, pelo menos até o momento em que o fundamentalismo religioso se transformou no grande cabo eleitoral da reeleição de George Bush, em 2004.

É reconhecido o papel de João Paulo II na luta e na desmontagem do mundo comunista, sobretudo na região da Europa central. Alguém já disse que se não fosse por Wotjyla, não teria havido o sindicato Solidariedade, e se não fosse por causa da existência do Solidariedade, não teria havia eleições na Polônia, e se não fosse pelas eleições polonesas não teriam existido as “revoluções de veludo”, que devolveram a Europa central ao “ocidente cristão”. Mas depois disto, se discutiu pouco a importância do conservadorismo moral de João Paulo II, e da intolerância teológica de sua Cúria Romana, na recomposição das energias expansivas do conservadorismo ocidental, que hoje alimenta o discurso e pratica messiânica do governo norte-americano de George Bush. Neste sentido, é interessante agregar a este quadro alguns outros acontecimentos que ocorreram de forma independente, naquele mesmo momento da “virada à direita” do “mundo ocidental”, entre 1978 e 1983. Acontecimentos que apontavam, entretanto, na mesma direção da intolerância religiosa e da escalada militar. Basta relembrar, a revolução xiita, no Irã, em 1979; a invasão do Irã pelas tropas sunitas de Saddam Hussein, em 1980, apoiadas e sustentadas pelas armas químicas e biológicas dos Estados Unidos e de vários países europeus; o aparecimento dos talibãs no Afeganistão, e, finalmente, em 1982, a “invasão preventiva” do Líbano pelas tropas de Ariel Sharon, que culminou com o célebre massacre dos palestinos, nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Quatro acontecimentos militares de forte conotação religiosa que se transformaram em peças do tabuleiro onde foi se armando, aos poucos, mais do que uma restauração conservadora, uma verdadeira “escalada aos extremos” teológicos – e as vezes militares - das religiões ocidentais que C.J.Jung e A.Toynbee chamaram de “extrovertidas”, ou seja, com vocação apostólica e conquistadora, ao contrário das religiões orientais que seriam essencialmente “introvertidas” e não expansivas.

Desta mesma perspectiva, a escolha de um papa alemão e conservador também tem um outro significado complementar: assim como Wotjyla foi escolhido pelos olhos estratégicos do Vaticano e das demais potências ocidentais com vistas a conquista do mundo comunista, Ratzinger foi eleito para unificar e recristianizar a “velha Europa”, segundo a proposta de João Paulo II, apresentada em Santiago de Compostela, na Espanha, em 1982. Este objetivo central explica seu apelo imediato ao diálogo entre as religiões cristãs e os judeus, e ao esquecimento do seu texto Dominus Iesus, publicado em 2000, defendendo a superioridade e inevitabilidade do catolicismo como caminho da salvação. Este mesmo projeto explica sua resistência explicita à incorporação da Turquia à União Européia. As críticas de Ratzinger ao relativismo, ao individualismo, ao consumismo e ao agnosticismo, feitas na sua homilia “pro-eligiendo”, que foi uma espécie de carta de princípios e programa eleitoral publicado na véspera da reunião do colégio de cardeais, foi uma crítica direta ao “amolecimento espiritual” da Europa, afogada num hedonismo laico, egoísta e desfibrado. Em Ratzinger, está sempre implícita a visão de uma União Européia que engordou excessivamente e perdeu sua capacidade de decisão e ação coletiva, gerida por partidos e lideranças políticas liberais e social-democratas sem idéias claras, sem energia e sem capacidade de liderança mundial. Como um velho alemão, conservador e teólogo, Ratzinger acredita na necessidade de voltar às raízes últimas da unidade e da força européia, o Santo Graal onde se escondem as primeiras verdades do cristianismo, imbatíveis e inegociáveis. Nesse sentido, Ratzinger defende para a Europa como para toda a Igreja Católica – mesmo que seja em sentido metafórico - um período de volta aos monastérios, onde seus povos e seus líderes recuperem a força espiritual capaz de recolocar a Europa na liderança mundial, por cima do fundamentalismo protestante dos norte-americanos. Sua meta é de longo prazo, e não se restringe apenas ao projeto de democratização ou conversão do “Grande Oriente Médio” dos neo-conservadores de Washington. Na verdade, seus olhos catequéticos ou conquistadores estão postos num horizonte mais longínquo, no imenso pedaço do mundo eurasiano onde o Papa João Paulo II não colocou os pés e onde as religiões “introvertidas” são hegemônicas, mas não tem pretensões expansivas.

É verdade que a história não se repete, mas ela pode ser lida como uma parábola, pelos contemporâneos de todas as épocas. Nesse sentido, pode estar no inconsciente deste projeto de reunificação e recristianização européia, o primeiro grande movimento de expansão dos poderes territoriais europeus, ibéricos, associados com a Igreja Católica. Um caso exemplar de centralização do poder territorial combinado com a ordenação autoritária dos costumes e a renovação do espírito e da disciplina cristã através da Inquisição, seguidos imediatamente pela “explosão expansiva” dos descobrimentos que deram origem ao primeiro grande império europeu, mundial e cristão de Carlos V e Felipe II, onde “o sol nunca se punha”. Esta poderia ser a grande cartada ou esperança de Bento XVI, a última tentativa de dar uma vitalidade civilizatória e cristã, à nova União Européia. Mas se a história serve como parábola, não se pode esquecer que foi neste mesmo período de glória cristã e espanhola, que Lutero, Calvino e Henrique VIII cindiram a Igreja Católica criando as primeiras igrejas cristãs e nacionais, que nunca mais se submeteram a Roma, mesmo depois do Concilio de Trento (1545-1563) e do movimento repressivo da contra-reforma do século XVI e XVII. Além disto, foram este novos países protestantes que acabaram sucedendo a Espanha na dominação européia do mundo. Muito antes que os Estados Unidos assumissem este mesmo papel, agora sob o impulso de sua “revolução neo-conservadora” que já é de fato a herdeira – ainda que ilegítima - do fundamentalismo teológico e moral de Wotjyla e Ratzinger. Neste sentido é sempre bom lembrar que por mais que a Igreja abomine a guerra, não existe nenhum possibilidade de existência de um projeto expansionista e intolerante que não acabe em guerra contra os hereges, sejam eles quem forem, mesmo quando se fale muito em diálogo, em geral deixando para os outros a responsabilidade de fazer a guerra.

21 de jan. de 2005

Quo Libertas?

No discurso de posse de W Buche sobre os serviços sociais, o presidente afirma que pretende tornar cada cidadão “um agente de seu próprio destino". Porém, quando ele resolve falar sobre o serviço militar, ele diz: "que os jovens devem servir a uma causa maior que seus desejos".
Ou seja, quando o governo deve servir a uma causa maior, o dos serviços sociais, tira o dele da reta. Na hora de explodir com o povo de seu país, pede o contrário.

PS: será que os membros da au-caeda se encontram na Venezuela? Será?!

18 de jan. de 2005

O trinunfo da impunidade

O trinunfo da impunidade
(EMIR SADER, 16/01/2005 JB)
O governo estadunidense teve que reconhecer o que todos sabiam, menos a população dos EUA: o de que não havia armas de destruição massiva no Iraque. Isto é, a razão pela qual foi decretada a guerra, a invasão e a ocupação do Iraque, era falsa. Mais de um ano e várias dezenas de milhares de mortos depois, a confissão não levará a nada. Será considerada um erro de avaliação.

Os governos dos EUA e da Grã-Bretanha já construíram um novo discurso: de qualquer maneira, o mundo estaria melhor sem o regime de Sadam Hussein. Triunfa assim a impunidade, o apelo à força parece compensar. Bush se reelegeu, o petróleo iraquiano está sob controle de empresas estadunidenses, as empresas dos países invasores faturam polpudos contratos na reconstrução do que eles mesmos haviam destruído.

O mundo está melhor com a guerra permanente no Iraque, com dezenas de mortos a cada semana? O mundo está melhor com o triunfo da truculência? O mundo está melhor com a destruição do patrimônio cultural da civilização mais antiga do mundo? O mundo está melhor com um país invadido por tropas estrangeiras?

Quem proporá no Conselho de Segurança das Nações Unidas punição para os dois países - membros permanentes do Conselho - que tomaram unilateralmente a decisão de, sem provas suficientes, desatar a invasão do Iraque? Que posição tomará o representante brasileiro? E os outros?

O que será da ONU se nada for feito? Valerá a pena o Brasil se candidatar a membro permanente do Conselho de Segurança de uma instituição desmoralizada pelo uso unilateral da força, sem nenhuma punição?

A que se pode comparar a invasão injustificada do Iraque: às invasões hitlerianas sobre a Checoslováquia e a Polônia? À invasão do Kuait pelo Iraque? À invasão dos territórios palestinos por Israel? À ocupação da Chechênia pela Rússia?

O projeto imperial busca articular política de guerras com liberalismo econômico. Com a primeira, trata de incorporar crescentemente novos territórios ao segundo - a ''guerra infinita'' está a serviço do chamado ''livre comércio''. O pai do presidente atual dos EUA já havia confessado que o móvel da primeira guerra do Golfo não foi a ocupação do Kuait pelo Iraque, recordando que muitos outros países - entre eles Israel - ocupam outros países, sem que tenham recebido nenhuma represália por parte dos EUA, sendo muitas vezes - como no caso mencionado - até mesmo apoiados e incentivos por Washington. O móvel foi o petróleo - reforçando a idéia de que os tanques estão a serviço da ''liberdade de comércio'', revelando assim de qual liberdade se trata - da de comercializar por parte das grandes corporações internacionais.

O mundo pode estar melhor se são as mesmas maiores potências produtoras de armamentos, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, supostamente encarregadas de zelar pela paz e pelo arbitramento dos conflitos no mundo? Pode estar bem o mundo, se as somas bilionárias que são gastas em armamento são as mesmas que faltam no combate à fome, à desnutrição e à miséria, sem que existam campanhas que preguem o desarmamento e o fim da indústria bélica?

O mundo está pior depois da invasão do Iraque, não a partir do julgamento de como viviam e vivem os iraquianos, mas a partir da impunidade que uma guerra desatada sem o aval das Nações Unidas, contra a opinião publica mundial, com argumentos falsos, impôs ao povo iraquiano e ao mundo. Poucos mandatários - entre eles Fidel Castro e Hugo Chavez - dizem ao governo Bush o que deve ser dito, revelando a crise moral que abala a cena política internacional.

A ONU se condena a se tornar, no máximo, uma Cruz Vermelha Internacional, depois da invasão do Iraque e do reconhecimento, por parte das potencias invasoras, da falsidade das razoes da guerra que segue, impunemente, produzindo milhares de vítimas. Como passará à História mais esse episódio da Pax Americana? Como passarão os que se calaram, os que foram coniventes, os que desviaram os olhos do holocausto do povo iraquiano? Eles passarão, enquanto a luta dos que combatem por um mundo sem guerras, com soluções justas, pacíficas e negociadas, seguirá adiante.

16 de dez. de 2004

Bush II

Bush II
As eleições norte-americanas confirmam que a democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos

Ignacio Ramonet

A reeleição, no último dia 2 de novembro, de George W. Bush para a Presidência dos Estados Unidos constitui uma afronta ao espírito da democracia norte-americana, a mais antiga do mundo e, por isso mesmo, sua referência primordial. É evidente que, tecnicamente falando, não há – desta vez – o que reclamar. Ninguém pode contestar o caráter legítimo da votação. Usando de seus direitos, os eleitores escolheram segundo seus desejos1. Nem por isso esta eleição é menos inquietante, e até chocante. Confirma que a democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos.

É realmente preocupante que Bush, conhecido por seu fundamentalismo religioso, por sua mediocridade intelectual e por sua incultura, tenha sido o candidato mais votado da história eleitoral norte-americana. Principalmente por ter enganado seu povo e mentido ao Congresso para conseguir autorização de conduzir uma “guerra preventiva” (não autorizada pela ONU) e invadir o Iraque; por ter incentivado um uso desproporcional de força, provocando a morte de milhares de civis iraquianos inocentes2; por ter ignorado a “ordem executiva” de 1976 do presidente Gerald Ford (ainda em vigor e que proíbe os serviços secretos de assassinarem dirigentes políticos estrangeiros) e ordenado a execução de supostos “terroristas3”; por ter violado as Convenções de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros de guerra; por ter permitido a prática de tortura na prisão de Abu Ghraib e em outros centros de detenção secretos; e porque ressuscitou o espírito do macartismo, que consiste em considerar culpado qualquer cidadão que possa ser suspeito de manter vínculos com uma organização inimiga.

Plebiscito da ilegalidade?
Com um quadro de honra de tal maneira sinistro, qualquer outro dirigente seria declarado pouco recomendável e banido do mundo civilizado. Não George Bush que, além do mais – e enquanto presidente da única hiperpotência mundial – ocupa o lugar central do dispositivo político internacional.

Seu segundo mandato promete dar continuidade ao anterior. E as duas primeiras nomeações de ministros confirmam que Bush interpreta sua vitória eleitoral como um plebiscito à sua política. A escolha de Alberto Gonzales para o Departamento de Justiça, por exemplo, constitui uma resposta de desprezo a todos os que criticam a tortura em prisioneiros acusados de terrorismo. Isso porque, na condição de assessor jurídico do presidente, o próprio Gonzales foi o autor dos dispositivos legais que permitiram contornar as Convenções de Genebra – qualificando de “inimigos combatentes” os prisioneiros das guerras do Afeganistão e do Iraque – e da criação da base de Gunatánamo. Contrariando a legislação norte-americana e os tratados internacionais, Gonzales não hesitou em suspender a proibição de que fossem exercidas “pressões físicas” sobre esses prisioneiros sob o pretexto de que “na condução da guerra, a autoridade do presidente é total”.

Limites do instrumento militar
Quanto à nomeação de Condoleezza Rice para o Departamento de Estado, é impossível não ver na medida uma reivindicação do unilateralismo puro e duro defendido pelos republicanos autoritários do círculo presidencial e que parecem confirmar novas ameaças contra o Irã.

No entanto, a incapacidade das forças armadas se imporem no Iraque contra os insurrectos prova os limites do instrumento militar. Constatação que também se pode fazer em Israel, no momento em que desaparece Yasser Arafat, o general Ariel Sharon, principal aliado de Bush no Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense constata que a capacidade de sofrimento dos palestinos continua superior à capacidade de destruição de seu exército. Saberia ele compreender as conseqüências disso?

Seria Bush capaz de acabar reconhecendo que os aspectos negativos da globalização (pobres cada vez mais pobres, injustiças planetárias, rivalidades regionais, desequilíbrios climáticos etc.) podem degenerar em conflitos caso não se consiga uma mediação conjunta multilateral? Ou que uma potência não pode pretender impor a lei sozinha?

2 de set. de 2004

Corrupção na Flórida

Porque o sistema eleitoral da Flórida é tão corrupto?

Depois do escândalo das últimas eleições presidenciais no Estado da Flórida que levou a uma recontagem de 36 dias. O eleitor norte-americano vai descobrir que pouco foi feito para tentar impedir os 'erros' cometidos em 2000.

Desde 2002 que novos sistemas de vottação foram testados na Flórida, todos sem sucesso. Sistemas de leitura digital falharam sistematicamente nas primárias de março deste ano. E o que vai fazer o poder estadual? Impedir a recontagem das máquinas que derem problemas. Ou seja, ao invés de tentar garantir o voto a todos os cidadãos aptos à esse exercício, irão fazer o contrário. No plesbicito venezuelano de 2004 essas máquinas foram utilizadas, com êxito, e ainda davam um recibo, para uma futura recontagem. Será o medo que leva o governador da Flórida, Jeb Bush, a evitar a recontagem?

Há também o voto por correio, que até então era o mais segura pois obrigava a presença de uma testemunha, mas, recentemente o proeminente governador e irmão do presidente ianque, sancionou uma lei que dispensa este reconhecimento formal do eleitor.

A democracia norte-americana é tão magnífica que desde 1845 que os mortos da Flórida participam de votação e ajudam a eleger seus governantes. Abram os olhos, pois é este tipo de democracia que anda sendo vendido pelos jornais como o supra-sumo dos sistemas de governo.

O mais tocante é que a Flórida é um dos sete estados daquela federação que não atualiza automaticamente a lista de votantes libertados da prisão. E para conseguir o seu direito de volta, tem que ultrapassar árduos obstáculos. Como disse um funcionário do Departamento de Correção da Flórida, 'o irmão do presidente decide quem vai votar e quem não vai'. Como mais da metade da população da Flórida é de afro-americanos que, em sua maioria, votam nos democratas, já viu o que vai dar. As últimas contagens indicam que por volta de 600 mil eleitores não poderão exercer seu direito de voto em noembro próximo.

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