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9 de nov. de 2006

Punição ao Emir Sader

Tenebroso. Nada mais a dizer a respeito da condenação do professor Emir Sader pelo juiz Rodrigo César Muller Valente do que isso.

Que tempo são esses em que repórteres são chamados depor na Polícia Federal, dizem que foram pressionados e toda a grande mídia faz alarde. E um professor escreve palavras duras [bem contudentes] sobre uma pessoa conhecidamente como de difícil trato. O Emir está respondendo pelo que escreveu por que assumiu o ônus de tê-lo escrito. Enquanto o Senador Bornhausen nega que tenha usado a palavra 'raça' ao se referir aos petistas como desrespeitosa.

O pior é que na setença do juiz (na verdade, juiz-auxiliar) avaliou que Sader cometeu crime ao tratar Bornhausen como "racista". Ora, a frase do senador não queria dizer outra coisa.
“Desencantado? Pelo contrário. Estou é encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos”.
Então, diante desta frase que causou estupefação em todos moralmente íntegros, vem a resposta do mesmo sobre a, agora, desdita.
“Quanto a ter usado a palavra ‘raça’ – não como designação preconceituosa de etnia, ideologia, religião, caracteres, mas como camarilha, quadrilha, grupo localizado –, tão logo alguns falsos intelectuais surgiram, incriminando-me, apareceram preciosos testemunhos a meu favor. Confesso que falei "dessa raça" espontaneamente, sem premeditação, usando meu modesto universo vocabular, a linguagem coloquial brasileira com que me expresso, embora meus adversários tentem me isolar numa aristocracia fantasiosa”.
Pois bem, está é a diferença, o Emir escreveu e por ser um professor reconhece o valor de um documento por ele escrito ou de uma frase proferida. Já o senador, do alto de seu conhecimento do parlamento brasileiro sabe que a frase dita hoje pode ser desmentida sem maiores contratempos. Principalmente se a grande mídia lhe for favorável.

S evocê é daqueles que não concordam com esta setença absurda, clique neste link e assine uma petição movida contra esta arbitrariedade . EU, ao assinar, fui o nº 9149.

Saiba mais:

Leia o artigo do professor que o levou à condenação

18 de jan. de 2005

O trinunfo da impunidade

O trinunfo da impunidade
(EMIR SADER, 16/01/2005 JB)
O governo estadunidense teve que reconhecer o que todos sabiam, menos a população dos EUA: o de que não havia armas de destruição massiva no Iraque. Isto é, a razão pela qual foi decretada a guerra, a invasão e a ocupação do Iraque, era falsa. Mais de um ano e várias dezenas de milhares de mortos depois, a confissão não levará a nada. Será considerada um erro de avaliação.

Os governos dos EUA e da Grã-Bretanha já construíram um novo discurso: de qualquer maneira, o mundo estaria melhor sem o regime de Sadam Hussein. Triunfa assim a impunidade, o apelo à força parece compensar. Bush se reelegeu, o petróleo iraquiano está sob controle de empresas estadunidenses, as empresas dos países invasores faturam polpudos contratos na reconstrução do que eles mesmos haviam destruído.

O mundo está melhor com a guerra permanente no Iraque, com dezenas de mortos a cada semana? O mundo está melhor com o triunfo da truculência? O mundo está melhor com a destruição do patrimônio cultural da civilização mais antiga do mundo? O mundo está melhor com um país invadido por tropas estrangeiras?

Quem proporá no Conselho de Segurança das Nações Unidas punição para os dois países - membros permanentes do Conselho - que tomaram unilateralmente a decisão de, sem provas suficientes, desatar a invasão do Iraque? Que posição tomará o representante brasileiro? E os outros?

O que será da ONU se nada for feito? Valerá a pena o Brasil se candidatar a membro permanente do Conselho de Segurança de uma instituição desmoralizada pelo uso unilateral da força, sem nenhuma punição?

A que se pode comparar a invasão injustificada do Iraque: às invasões hitlerianas sobre a Checoslováquia e a Polônia? À invasão do Kuait pelo Iraque? À invasão dos territórios palestinos por Israel? À ocupação da Chechênia pela Rússia?

O projeto imperial busca articular política de guerras com liberalismo econômico. Com a primeira, trata de incorporar crescentemente novos territórios ao segundo - a ''guerra infinita'' está a serviço do chamado ''livre comércio''. O pai do presidente atual dos EUA já havia confessado que o móvel da primeira guerra do Golfo não foi a ocupação do Kuait pelo Iraque, recordando que muitos outros países - entre eles Israel - ocupam outros países, sem que tenham recebido nenhuma represália por parte dos EUA, sendo muitas vezes - como no caso mencionado - até mesmo apoiados e incentivos por Washington. O móvel foi o petróleo - reforçando a idéia de que os tanques estão a serviço da ''liberdade de comércio'', revelando assim de qual liberdade se trata - da de comercializar por parte das grandes corporações internacionais.

O mundo pode estar melhor se são as mesmas maiores potências produtoras de armamentos, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, supostamente encarregadas de zelar pela paz e pelo arbitramento dos conflitos no mundo? Pode estar bem o mundo, se as somas bilionárias que são gastas em armamento são as mesmas que faltam no combate à fome, à desnutrição e à miséria, sem que existam campanhas que preguem o desarmamento e o fim da indústria bélica?

O mundo está pior depois da invasão do Iraque, não a partir do julgamento de como viviam e vivem os iraquianos, mas a partir da impunidade que uma guerra desatada sem o aval das Nações Unidas, contra a opinião publica mundial, com argumentos falsos, impôs ao povo iraquiano e ao mundo. Poucos mandatários - entre eles Fidel Castro e Hugo Chavez - dizem ao governo Bush o que deve ser dito, revelando a crise moral que abala a cena política internacional.

A ONU se condena a se tornar, no máximo, uma Cruz Vermelha Internacional, depois da invasão do Iraque e do reconhecimento, por parte das potencias invasoras, da falsidade das razoes da guerra que segue, impunemente, produzindo milhares de vítimas. Como passará à História mais esse episódio da Pax Americana? Como passarão os que se calaram, os que foram coniventes, os que desviaram os olhos do holocausto do povo iraquiano? Eles passarão, enquanto a luta dos que combatem por um mundo sem guerras, com soluções justas, pacíficas e negociadas, seguirá adiante.

17 de ago. de 2004

Anúncio na TVE pode?

Anúncio na TVE pode?

E pode anunciar na TVE?, pergunta a propaganda. E se apressa em responder: “Claro que pode. Afinal a TVE é uma emissora democrática. Aberta tanto para o público como para os anunciantes”. O anúncio é da TVE da Bahia, pertencente ao governo daquele Estado. É mais descarnado que o comportamento de outras televisões que deveriam ser públicas, mas que se distanciam cada vez mais desse objetivo, funcionando com critérios mercantis.


Nesse caso, a TVE da Bahia explicita a concepção que tem da democracia. Coerente com o caráter que a democracia assumiu no período de hegemonia neoliberal, democracia se identifica com o mercado, demonstra que é ‘democrática’, não discriminando os anunciantes. Anunciantes significa financiador, com as conseqüências correspondentes.


O que isso significa? O que significa a presença de anunciantes nos órgãos de imprensa? Significa um forte condicionamento, que materializa a contradição central da mídia privada nas sociedades capitalistas: desempenham um caráter público, mas são empresas privadas, movidas pelo lucro.
Aceitar anúncios privados parece algo óbvio, positivo. Afinal de contas, o próprio governo anuncia que vai substituir uma reforma tributária justa, que faça pagar impostos o sistema bancário, que aufere lucros gigantescos, pela tentativa de captar recursos no setor privado – através do chamado PPP – parceria público-privado – para obras de responsabilidade do Estado. O que faz aqui é introduzir a lógica privada, a expectativa de auferir de lucro na esfera estatal, que deveria se orientar pelo direito das pessoas, isento de mecanismos de mercado. Ao fazer, o governo tem que retribuir os investimentos privados com garantias e polpudos retornos, até porque compete com outras possibilidades de investimento, inclusive na Bolsa de Valores, onde os capitais não pagam impostos, conseguem maiores retornos existentes, com uma liquidez total. Só mesmo oferecendo condições ainda mais favoráveis – se é que elas existem – é que o governo poderia obter captações de recursos, o que dificilmente existirá.


Empresas de jornalismo vendem ações no mercado, acreditando que apenas aumentaria seu capital, sem contrapartidas. Essa atitude do Le Monde gerou um debate com os dirigentes do Le Mode Diplomatique, no ano passado, em que se mencionava, por exemplo, que o Financial Times havia tido um excelente desempenho no ano anterior, mas os acionistas exigiram o retorno de seus investimentos e o jornal acabou mandando embora uma quantidade de jornalistas. Denunciava-se a perda de autonomia mantida em um jornal como Le Monde Diplomatique, em que a publicidade não é maior que 5 por cento das rendas do jornal e em que ações estão repartidas entre o proprietário original, o Le Monde, os jornalistas da redação e uma associação de apoio dos leitores, de forma que o redator chefe nunca seja nomeado fora das indicações dos jornalistas e da associação dos leitores.

A experiência negativa da TV Cultura revela como, no caso das TVs estatais, sua programação passa a depender da disposição dos anunciantes, perdendo sua autonomia, porque as agências de publicidade passam a escolher os espaços para os quais serão destinados os anúncios. O ‘mercado’ passa a interferir, de forma cada vez mais forte, conforme o Estado se retira de sua responsabilidade de promover a cultura e a informação de forma democrática.


O ‘mercado’ revela assim sua face antidemocrática, dado que seus interesses estão voltados para a multiplicação das vendas e do lucro e não se orientam pela qualidade da programação. Uma mídia democrática é uma mídia pública – nem estatal, nem mercantil. Financiada pelos recursos públicos, mediante mecanismos de orçamento participativo e não submetida aos mecanismos de mercado.

Emir Sader – Caros Amigos nº 89 – pg 28