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11 de out. de 2006

Os porquês

Dizem que religião e politica não se discute... Só que, mesmo correndo o
risco de perder alguns amigos, me reservo o direito de discordar da segunda
parte ;-)

Enton... Antes que essa eleição termine sem ninguem ter falado nada...

Votei no lula em 2002. Tenho que confessar que foi muito bom eleger um presidente pela primeira vez.... O governo começou com seus erros e acertos e estava indo de forma digamos "estável" (nada surpreendente, mas também nada desastroso) até 2005... Até que a chamada crise política mudou tudo, foi derrubando um por um das grandes figuras do PT.... Quem disser que não se decepcionou ou é porque votou no Serra (minoria) ou está mentindo.

Agora temos uma eleição de novo que, com apenas dois candidatos ditos "principais", vira quase que um plebiscito. Representando o governo petista e o Lula: o próprio. Representando o governo tucano e FHC: Alckmin. A comparação é inevitavél e, mais do que isso, sabemos que a turma do governo FHC tá toda ai de volta (coordenando a campanha, fazendo o programa de governo, etc)

Acho que vale a pena lembrar alguns fatos, fazer uma reflexão e colocar as informações nas suas devidas proporções...

O governo Lula foi bom para os banqueiros e os pobres? Com certeza foi. Muito melhor que o FHC que foi bom APENAS para os banqueiros! Não estou inventando isso não, vamos aos fatos... Lembrem que o Banco Central vendeu dolar mais barato ao banco do Cacciola (que fugiu pra Italia pra não ser preso) causando só ai uma perda de R$ 1,6 bilhão:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u20042.shtml

Na boa, 1.6 bi é muita grana. Antes disso, com o socorro aos bancos (o PROER) o governo já teria gasto 12% do PIB segundo economistas da Cepal:

http://www.senado.gov.br/sf/noticia/senamidia/historico/1999/11/zn112613.htm


Tudo bem, mesmo sem ajuda direta, os bancos continuam tendo lucros extraordinários com o Lula... Até ai empate, talvez?

Então começam as diferenças: o governo Lula termina sem ter QUEBRADO o país para se reeleger. O PSDB adora falar que inventou a lei de responsabilidade fiscal, mas infelizmente devemos admitir: o troféu da irresponsabilidade fiscal também pertence ao governo FHC.

De saída compra-se uns deputados pra votar pela reeleição. Ronivon Santiago, recentemente preso com os sanguessugas, confessa que embolsou 200 mil pelo seu voto:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/circulo/pre_mer_voto_1.htm

Mas comprar deputados não foi nada, isso o PT também fez. Todo mundo ficou sabendo do mensalão, devezenquandão... Seria outro empate?

Só que foi muito pior, mas foi MUITO pior e mais danoso ao país o que eles fizeram pra terminar de reeleger FHC em 98. A formula é simples: manter o real super-valorizado até a eleição. Com o real super- valorizado os importados ficam baratinhos, segura-se a inflação, todo mundo fica feliz de poder viajar, comprar eletro-eletrônicos e etc. O problema é que as contas externas do país não fecham... Dane-se o país! O que importa é a reeleição, não é? Pra refrescar a memória: logo após a eleição, em janeiro de 99, o dolar disparou de R$ 1,21 para R$ 2,06.

http://www.dieese.org.br/esp/cambio/cambio.xml

É lógico que a dívida pública explodiu de 98 para 99, passando de 37,8% do PIB para 50,4%. No final de FHC-2, em 2002, chegou a 57,3%:

http://www.dieese.org.br/notatecnica/notatecDividapublica.pdf

Então voltamos a agosto de 2006 para comparar: nesse final de governo a dívida pública está em 50,3% do PIB. Ou seja, a dívida do governo é praticamente estável no governo Lula, com pequena redução em termos relativos (absolutamente cresceu).

http://www.estadao.com.br/ultimas/economia/noticias/2006/ago/24/184.htm


É claro que o arrocho da equipe econômica é uma merda...

O tão falado "superavit primário" é um eufemismo, não há, necessariamente, superavit algum. E isso impede que o governo faça mais investimentos... Afinal qualquer coisa é melhor do que ficar pagando juros de uma dívida.

Só que essa dívida não surgiu agora, do nada. Não sei se existe outra forma de administrar isso, mas se a gente jogar pelas regras do jogo, não tem como deixar de pagar. A conta é simples: a dívida tá em torno de um trilhão de reais... Quanto é que a gente recebe pelo dinheiro que tá investido na renda fixa? Digamos 13% no Itaú? Então não tem mágica, esse dinheiro vem dos títulos públicos, vem do governo. Fazendo um chute por baixo dá 130 bilhões por ano. É muito dinheiro que poderia estar sendo melhor utilizado!

Fernando Henrique Cardoso foi IRRESPONSÁVEL, foi CRIMINOSO. Manter a inflação baixa, falindo o país desse jeito é mole. Eu lembro de ter visto FHC na televisão falando explicitamente que as privatizações seriam usadas para reduzir a dívida, é só procurar os arquivos da época:

http://www.radiobras.gov.br/anteriores/1997/sinopses_1707.htm

http://www.radiobras.gov.br/integras/98/integra_3006_2.htm

Parece até piada, vendeu-se tudo e a dívida TRIPLICOU!

Bom, por falar em privatizações... Apenas um caso pra entender o nível da zona: Luiz Carlos Mendonça de Barros (na época ministro das comunicações, atual consultor econômico do Alckmin) conversa com André Lara Resende (na época presidente do BNDES) como seria montada uma operação, um "esquema", para favorecer o Opportunity do Daniel Dantas no leilão da Telebras. Até FHC foi chamado para interferir e convencer os fundos de pensão a participarem. As conversas foram gravadas e vazaram para a imprensa:

http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=1390


Ok. Falar mal de FHC é facil... Quero ver falar bem do Lula.

Queiram vocês ou não, 94% das crianças no bolsa-familia fazem três refeições por dia. Na pesquisa realizada pela UFF, a qualidade da alimentação melhorou para 85% das familias do programa.

http://www.radiobras.gov.br/abrn/brasilagora/materia.phtml?materia=267419

http://www.universia.com.br/html/noticia/noticia_clipping_dbdji.html

Antes que alguém diga que o bolsa familia é roubalheira, que o governo paga pra quem não é pobre e tal, é bom saber que no site Transparência (criado no governo Lula) é possível ir em cada cidade e ver o nome e o CPF de cada pessoa que recebe o benefício. Pode ser 30 reais que seja, tá tudo lá. Se souber de algo errado, denuncie!!

http://www.transparencia.gov.br

Além disso o site tem todos os pagamentos do governo... Acho que pode até procurar pelo CNPJ da empresa do Duda Mendonça ou do Marcos Valerio pra ver quanto foi pago em publicidade (ou seria "publicidade" entre aspas?) ...

O governo já construiu 152.400 cisternas no semi-árido com o programa Fome Zero. São 152 mil famílias que deixam de depender daquela "ajuda" de caminhão-pipa de político em época de eleição, é um ciclo de dependência que se quebra. É um projeto simples e eficiente, sem medidas mirabolantes: A água da chuva é recolhida do telhado da casa, filtrada e guardada numa cisterna semi-enterrada de onde ela pode ser consumida durante vários meses. Outro impacto é na saúde. Uma comunidade da Bahia acusou 100% de habitantes com verminose antes da construção de cisternas, depois, caiu para 7%:

http://www.febraban.org.br/Arquivo/Destaques/destaque-fomezero_cistermas.asp

http://www.fomezero.gov.br/noticias/patrus-programas-sociais-sustentam

Num filme recente do Eduardo Coutinho que eu vi (que não tem nada a ver com o governo) , eles por acaso chegavam pra filmar numa casa que fazia parte do programa... A mulher achou que era o pessoal das cisternas que estava indo inspecionar e só ai me toquei dos tubos de pvc saindo do telhado...

Em todos buracos que viajei nos últimos anos, no confins do Vale do Jequitinhonha e no interiorzão da Bahia, em todo lugar eu vejo a placa do programa Luz para Todos. Na placa tem sempre escrito o nome da comunidade, geralmente são lugares bem pobres (pense bem: não ter energia elétrica em 2006 é quase medieval). Não sei quais são os números do programa, mas que ele existe e certamente está garantindo mais uns votos pro Lula isso tá...

E a Polícia Federal? Tá pegando corrupto e pilantra aos montes... Também não tem mágica: É só dar recursos, permitir a contratação de pessoal e deixar os caras trabalharem. Lembrando um exemplo de como a PF funcionava nos tempos de FHC: em 95 ao saber que estava sendo investigado pela PF, ACM ligou para o diretor geral Wilson Romão e ameaçou usar polícia civil para prender o delegado federal Roberto Chagas Monteiro. Resultado: as investigações foram
suspensas e o delegado foi mandando para a Argentina!

http://www.zaz.com.br/istoe/1634/politica/1634_memorias_trevas5.htm

Li uma entrevista do Paulo Lacerda (diretor da PF) há uns 2 anos dizendo que o que ele fazia era colocar equipes de um estado pra pegar os bandidos de outro estado... Aí o que vale é a lei... Não tem aquele amigo que conhece um delegado da PF disposto a "dar um jeitinho"...

Enquanto em 8 anos de FHC foram menos de 100 operações, em 4 anos de Lula já são 280! A cada investigação descobre-se mais material para futuras investigações... Eles dizem que já têm material para mais 5 anos de operações...

Depois da investigação vem o inquérito. Enquanto o procurador geral escolhido por FHC ficou marcado pelo incômodo apelido de "engavetador geral" (Geraldo Brindeiro arquivava ou simplesmente "esquecia" todas as denuncias contra o governo), Lula escolheu sempre o candidato indicado pelos membros do ministério público, primeiro Cláudio Fonteles e depois Antonio Fernando de Souza.

http://www.terra.com.br/istoedinheiro/411/financas/dono_poder.htm

E ainda tem gente que diz que o governo Lula é "o mais corrupto da história"... Sob que métrica?

A CPI do Collor concluiu que 10,6 milhões foram usados diretamente para pagar despesas pessoais do presidente, de um total de 260 milhões.

http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=2926

A Controladoria Geral da União mostrou que a maior parte das liberações de dinheiro para a máfia dos sanguessugas foram feitas no último ano do governo FHC e que os valores cairam no governo Lula.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u80751.shtml

Enquanto isso, o Engavetador Geral engavetou 242 inquéritos e arquivou outros 217 envolvendo deputados, senadores, ministros, ex-ministros e o próprio FHC. E o Alckmin conseguiu barrar a abertura de todos os 69 pedidos de CPI protocolados na atual legislatura da Assembléia de SP:

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=10511

A questão é que muita gente ainda tem preconceito com o presidente ex-metalúrgico... O "sapo barbudo", como dizia o Brizola em 89. Imagina se um senador da república iria subir na tribuna pra ameaçar dar uma surra no presidente se fosse o FHC?? Pois é, o senador Arthur Virgilio, atual paladino anti-caixa 2 (mas que no passado confessou ter feito uso do recurso em entrevista ao Jornal do Brasil) fez isso.

Enfim... Votar em Alckmin nem pensar. Pode parecer que os candidatos têm propostas parecidas e são a mesma coisa, mas na boa... Não são não. Os resultados estão ai, é só comparar... Balança comercial brasileira, quitação da dívida com o FMI, índice Gini de desigualdade de renda, combate ao trabalho escravo, ao trabalho infantil, ao analfabetismo...

Esses economistas do PSDB (a galerinha da Casa das Garças) estão sempre pensando nas próximas grandes negociatas, depois da farra que foram as privatizações... A próxima seria tirar o dinheiro do FAT do BNDES (que empresta a juros mais baixos para promover projetos de inovação, infraestrutura e desenvolvimento social) para colocar na mão dos bancos privados, que segundo eles obteriam taxas mais baixas pela competição... Alguém acredita em competitividade entre os bancos privados?

http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=1982

Sei que os tucanos e o PFL estão loucos pra voltar... Vou votar em Lula de novo e espero que eles não atrapalhem o país pelos próximos 4 anos.

Pesquisa e texto: Miguel Freitas

29 de set. de 2006

GOLPE DO GRAMPO NO TSE

No Painel da Folha de São Paulo desta segunda-feira, 25/09/2006, Renata Lo Prete acrescenta dados novos à informação de ontem, sobre o grampo do TSE:

Fora do gancho 1. A Fence, que fez varredura nos telefones do TSE, teve rompido pelo então ministro Humberto Costa (sic) contrato na pasta da Saúde. Acusada de superfaturamento na gestão de Serra (sic), foi inocentada pelo TCU.

Fora do gancho 2. Dirigida por um ex-chefe de telecomunicações do SNI, a Fence foi alvo de suspeição na descoberta de R$ 1,4 milhão no cofre da Lunus, na campanha presidencial de Roseana Sarney, mas não foi comprovada a sua participação."

Seria bom se fôssemos corretamente informados sobre o contrato do TSE com a empresa Fence, se houve licitação, quanto custa ao erário uma empresa privada fazer um serviço que a Polícia Federal faz a custo mínimo...

Fence, Serra, Barjas Negri, PSDB: tudo a ver. Quer saber por quê?



14/03/2002

Saúde contrata empresa contra grampos
OTÁVIO CABRAL - da Folha de S.Paulo, em Brasília.
FERNANDA DA ESCÓSSIA - da Folha de S.Paulo, no Rio.

O Ministério da Saúde contratou serviços de contra-espionagem da Fence Consultoria Empresarial Ltda., empresa do Rio que atua com "assessoramento e segurança de comunicações em linhas telefônicas". Entre abril de 99 até ontem, foram pagos pelos serviços R$ 1,19 milhão.

Somente neste ano, o contrato prevê o pagamento de até R$ 1,87 milhão. A Fence foi contratada para "detectar a existência e desativar campos magnéticos espúrios" nas linhas telefônicas do Ministério da Saúde, conforme está previsto no contrato 18/99, firmado entre a empresa e aquela pasta em abril de 1999.

A Abin (Agência Brasileira de Inteligência, que atua como serviço secreto do governo federal) e a Polícia Federal fazem varredura de grampos quando solicitadas por órgãos públicos que suspeitam de espionagem. Segundo a Saúde, a Abin "não tem estrutura nem pessoal para realizar este tipo de trabalho", o que, para a pasta, levou à contratação de "uma empresa idônea".

Conforme a Folha apurou, a Fence, além de varreduras eletrônicas, também tem capacidade de fazer escutas telefônicas, embora a execução desse tipo de serviço seja negada tanto pela empresa quanto pelo ministério.

Pefelistas atribuem a uma operação de grampo ilícito a origem da busca e apreensão feita na empresa Lunus, em São Luís, que resultou na descoberta de R$ 1,34 milhão no cofre da empresa, supostamente destinados à campanha presidencial da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, segundo a versão de Jorge Murad, marido e sócio de Roseana.

Murad se demitiu anteontem do governo, onde ocupava o cargo de gerente de Planejamento, após assumir a responsabilidade pela arrecadação do dinheiro, cuja origem não revelou.

Atribui-se à repercussão do episódio a queda de Roseana nas pesquisas de opinião. O PSDB, em nota oficial, já negou qualquer tipo de relação com a operação feita na Lunus pela Polícia Federal.

A Fence é de propriedade do coronel da reserva do Exército Enio Fontenelle, que chefiou o setor de telecomunicações eletrônicas do extinto SNI (Serviço Nacional de Informações). Enio afirma que Serra, que deixou o ministério da Saúde em fevereiro último, sabia do contrato firmado e de toda a atuação da empresa.

O contrato do Ministério da Saúde com a Fence foi assinado sem licitação, com a estimativa de que sejam feitas pelo menos 600 varreduras por mês.

Coincidentemente, o valor do contrato aumentou substancialmente neste ano de eleição. Entre 1999 e 2001, a empresa recebia até R$ 28.406,06 mensais, valor previsto no Orçamento da União. Para 2002, o contrato foi reajustado e a empresa passou a receber até R$ 156.048 ao mês.

A contratação pelo ministério dos serviços de contra-espionagem da Fence surpreende membros do Executivo. Dois ministros do atual governo, um do PSDB e outro do PMDB, afirmaram à Folha que, no ano passado, suspeitaram que seus telefones estavam grampeados. Ambos procuraram o general Alberto Cardoso, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, que determinou que a Abin promovesse varreduras eletrônicas, sem necessidade de gastos extras para o governo.

Um ex-ministro da Justiça do governo FHC, sob condição de não ser identificado, afirmou que, quando esteve no cargo, orientou todos os funcionários de primeiro e segundo escalões a promoverem varreduras em seus telefones em busca de grampo.

O ex-ministro colocou a PF à disposição para a execução do serviço. Segundo ele, a PF tem os melhores especialistas em varredura e, por isso, não haveria necessidade de contratar empresa. Além da Saúde, a Fence foi contratada em 1999 pelo Superior Tribunal de Justiça. Para promover varreduras nos gabinetes e nas casas dos ministros, a empresa recebeu na época R$ 92.248,80.



Folha de São Paulo, 17 de março de 2002

Perigo à vista
JANIO DE FEITAS

A estrutura de distorção do processo eleitoral que está posta em ação não tem paralelo nem na campanha de Fernando Collor. Nesta, o dispositivo era composto pela mídia e por grandes empresários e suas fortunas. Era particular, portanto. Na atual, se o dispositivo particular não tem (ainda?) a mesma intensidade, há o envolvimento do poder público, com participação que excede muito o seu uso na reeleição e transgride e ameaça o Estado de Direito democrático.

Uma ou outra coincidência casual é sempre possível. Mas o acúmulo de incidências, algumas complexas e todas no mesmo sentido, só pode resultar do funcionamento articulado de uma estrutura ativada com propósitos determinados. É o que se constata com a perfeita coincidência de atos e fatos que interligam, como partes de uma mesma circunstância, certa representação do Judiciário federal, outra da Procuradoria da República, Ministério da Justiça, Polícia Federal, BNDES, Ministério da Saúde, uma empresa especializada em ("detectar") escutas telefônicas e a Presidência da República com seus fax.

Nada do que o Ministério da Saúde disse sobre a contratação da Fence Consultoria Empresarial merece crédito. Suas pretensas explicações não se conciliam nem com o que diz o próprio representante da empresa, coronel e ex-SNI Enio Fontenelle, sobre o contrato feito na gestão de José Serra na Saúde, alegadamente para vistoria de possíveis escutas clandestinas em instalações do ministério.

Atual ministro e secretário executivo do ministério ao tempo de Serra, Barjas Negri emitiu nota oficial afirmando que o valor do contrato multiplicou-se por seis, dois meses antes da mudança de ministro, porque a frequência de verificações aumentou. De mensais, passaram a semanais. O custo, para os cofres da Saúde, passou de R$ 308.670,84 por ano (média mensal de R$ 25.722,57), segundo o contrato firmado em abril de 99, para R$ 1.872.576,00 (média mensal de R$ 156.048,00), conforme o contrato assinado em 19 de dezembro de 2001.

Ao passar de verificações mensais a semanais, a lógica levaria o valor do contrato a subir quatro vezes, de R$ 308.670,84 para R$ 1.234.683,36. Há, pois, R$ 537.892,64 não explicados pelo contrato para "varredura" no Ministério da Saúde.

O número mesmo de "varreduras" indicado pelo governo é falso. Em tranquilo esclarecimento dado à Folha na tarde de sexta-feira, o coronel Fontenelle negou a ocorrência de periodicidade regular entre vistorias. A referência à periodicidade mensal, no primeiro contrato, deveu-se a conveniências de contratos no serviço público. No contrato feito dois meses antes da saída de Serra, a palavra "mensal" foi retirada do texto. Apenas "foi pedida", mas sem menção no contrato, "mais frequência de verificações", nas palavras do coronel.

As "varreduras" eram "sem periodicidade definida" e, esclarece Fontenelle, não abrangiam todos os pontos de cada vez. "Segunda-feira e terça, alguns. Mais tarde, outros. Não existe "varredura" todos os dias."

Barjas Negri deu a dimensão desse trabalho: "600 itens" de verificação a R$ 260,08 por item, o que leva aos montantes anual e mensal do novo contrato. Observação inicial: o coronel Fontenelle diz que "não verifica todos os itens a cada inspeção", mas um grupo de cada vez, "até para não despertar suspeita". Logo, não caberia multiplicar os 600 itens por seu valor unitário para fixar ou explicar o valor do contrato. Mais uma demonstração, portanto, da impropriedade do alto valor considerando-se apenas o serviço das "varreduras" referidas.

Outra observação sobre os itens a serem verificados: os 600 citados por Barjas Negri são produto de uma conta de chegar, para bater no total do contrato. O número é falso. "São mais ou menos uns 80 itens", esclareceu o coronel Fontenelle, já 24 horas depois de divulgada a nota de Barjas Negri com o número fabricado.

Ainda em seu atabalhoado e duvidoso socorro a quem o fez ministro, Barjas Negri diz que a "Abin [Agência Brasileira de Inteligência, o SNI criado pelo atual governo" e a Polícia Federal não teriam condições de fazer varreduras quinzenais ou mensais", por falta de pessoal e de estrutura. É mentira. Palavras do coronel Fontenelle: "Para fazer [varredura" de um telefone, um minuto e meio. Para fazer uma sala, meia hora". (E acrescenta o pormenor técnico: "Sempre fora do expediente, de preferência à noite"). Abin e Polícia Federal têm tal habilitação para "varreduras", seja em que periodicidade for, que são as incumbidas de fazê-las na própria Presidência da República.

Isso tudo é significativo, além dos seus aspectos administrativamente negativos, porque há forte evidência de escuta clandestina de telefones em São Luís, onde a apreensão do dinheiro de mil versões deu-se menos de 48 horas depois de sua chegada ao cofre que abrigava.

A Polícia Federal e o Ministério da Justiça, que a controla ou deve fazê-lo, proporcionam a incidência de vários fatos no sentido de sua participação eleitoral. "Não falo política nem falo sobre política enquanto estiver no comando da PF", diz o diretor da Polícia Federal. Faz e fala, sim. Em setembro passado, filiou-se ao PSDB de José Serra, o que constitui o mais explícito ato formal de definição política e partidária. Nos últimos meses, o delegado Agílio Monteiro Filho tem viajado em frequentes fins de semana para Belo Horizonte, se tornou notório o seu propósito de candidatar-se a deputado federal.

O repentino afastamento do delegado federal que presidia o inquérito sobre irregularidades na privatização de telefônicas -aquelas reveladas por gravações em que Fernando Henrique, Mendonça de Barros e outros combinam ingerências manipuladoras no processo de licitação- é mais do que um fato estranho. É um fato cujos componentes todos conduzem, forçosamente, à dedução de motivações políticas e eleitorais. Notabilizado como arrecadador de dinheiro para as campanhas de José Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira tem posição muito delicada no inquérito. E não é o único dos identificados com Serra nessa história.

Em artigo na Folha de anteontem, o ex-ministro Saulo Ramos demonstrou a violência institucional, contra o Código de Processo Penal e contra a própria Constituição, do Ministério da Justiça e da Polícia Federal ao praticarem a operação no escritório da empresa Lunus, de Roseana Sarney e Jorge Murad.

"Em diligência desse tipo, quem cumpre mandado judicial deprecado é oficial de Justiça (art.355, pr. 2º, do CPP). E a polícia, a da comarca (de São Luís, no caso) somente pode e deve ser requisitada se houver resistência contra a busca e a apreensão." (...) "O mandado judicial, expedido em Palmas, estava em carta precatória ao juiz do Maranhão e era este quem deveria, se necessário, requisitar a polícia federal de lá para cumprimento da diligência." A operação foi toda feita pela Polícia Federal, e não por oficial de Justiça, e com policiais de Brasília especialmente escalados por Agílio Monteiro Filho.

Os procedimentos dessa operação deixam, também, uma lamentável interrogação sobre a conduta dos representantes da Procuradoria da República no inquérito da Sudam. Não por considerarem necessária a apreensão no escritório da Lunus, cujas suspeitas de participação nas fraudes e desvios financeiros da Sudam precisam ser apuradas sem reserva alguma, nem mesmo a do período eleitoral. Mas ficaram indícios de que colaboração de procuradores com as numerosas irregularidades praticadas na operação, e ainda depois dela, com implicações eleitorais cujos benefícios já estão expostos por pelo menos três pesquisas de opinião do eleitorado.

Em outra linha de presença do poder público, uma peculiaridade está impossibilitando a aceitação de motivos técnicos do BNDES para a concessão de R$ 284 milhões à Globo Cabo. É que a empresa acumula alto prejuízo e não tem evidenciado condições de cumprir compromissos inclusive com o BNDES mesmo. A atitude do banco, a esta altura, tem implicação eleitoral evidente a cada dia e, dados os precedentes, com esperável intensificação.

Entre jornalistas, comentam-se muito as pressões que José Serra tem feito sobre alguns deles, mais diretamente envolvidos com notícias e comentários a ele referentes, mesmo que ainda não publicados. É daí, em grande parte, que vêm as menções, em número crescente, ao seu autoritarismo e ambição desmedida de poder.

O uso das engrenagens do poder está mais desabrido e intenso do que jamais. Se no começo é assim, depois não será menos incondizente com os direitos e a legalidade que tanto têm custado a este país.

19 de jul. de 2006

É o cara !!!

Numa boa, todos reclamam de que as eleições deste ano são uma porcaria e tal. Mas no Rio de Janeiro é um luxo. Poder escolher o Vladimir Palmeira como governador é um luxo. Porra, ele foi massacrado pelos asseclas de Garotinho e Bené. Nunca teve palanque oficial dos cardeais do partido. Sinceramente, Vladimir é o cara !!!!!

13 de set. de 2005

Viúva de Mitterrand diz que crise brasileira é falsa

A presidente da Fundação France Liberté, Danielle Mitterrand, viúva do ex-presidente francês François Mitterrand, falecido em 1996, defendeu, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu governo. "A crise (política) é falsa. É uma maneira de a oposição desonrar um homem que pode ser bem- sucedido e que tem apoio popular dos brasileiros", declarou Danielle. Ela esteve em Brasília para assinar, com o ministro-chefe da Secretaria das Relações Institucionais, Jacques Wagner, protocolo complementar ao acordo de cooperação Brasil/França para a elaboração de indicadores que permitirão avaliar as políticas sociais e também os avanços em relação ao cumprimento das oito metas do milênio.

"Creio que o momento é de apoiar vigorosamente o presidente Lula pois o caminho do seu governo é correto", acrescentou ela. "Penso que este governo fez muita coisa na área social e vem sendo bem-sucedido."

Danielle apóia vários projetos da área social no país, como as cooperativas de catadores de papel e lixo em Belo Horizonte, que está produzindo material reciclado, e de produtores de açúcar em Pernambuco, que distribui o produto e seus derivados em diversos países da Europa. Após assinar o protocolo, Danielle Mitterrand, destacou que "o grande valor do Brasil é seu povo e sua natureza" e que o empreendedorismo dos brasileiros tem um valor impossível de ser contabilizado.

Fonte: Agência Estado

21 de jul. de 2005

"DESABAFO"

Dirceu: "Vamos ter muita luta pela frente, mas eu sei lutar"

O colunista Jorge Bastos Moreno no Globo Online, citando como fonte um amigo do deputado José Dirceu (PT/SP), diz que, "para quem está há 40 dias no centro de uma crise política dessas dimensões, o homem está inteiro. E seguro."

O colunista reproduz um "relato do que o deputado anda pensando", a partir do que enotou "no meu caderninho". Comenta, a título de introdução, que o ministro-chefe da Casa Civil não faz "um desabafo amargurado, raivoso ou deprimido". Longe disso, Dirceu "estaria surpreendentemente de bom humor, com disposição para a luta". E cita: "Vamos ter muita luta pela frente. Mas eu sei lutar. Quando se tem o bom propósito na cabeça, a força não nos abandona."

Veja o texto reproduzido do blog, com a ressalva, feita por Bastos Moreno, de que "não são as palavras de José Dirceu mas as palavras atribuídas a José Dirceu por um desses amigos que estiveram com ele".

“Por que o Lula me tirou do governo? É uma pergunta que eu me faço cada vez mais. Não há rigorosamente nada contra mim. Nada. Agora, eu tenho até um atestado de idoneidade, depois do depoimento do Cachoeira na CPI dos Bingos. Eu já tinha esclarecido tudo àquela época. Na CPI estadual também fiquei limpo. Não devo nada.

Eu não tenho medo de nenhuma das investigações em curso, estou com a consciência mais do que tranquila. Eu não tenho medo de ir a CPI alguma, mas não vejo sentido em ser convocado pela CPI dos Correios. O que eu tenho a ver com aquela investigação? O meu nome não foi citado uma única vez, por quem quer que seja. Todos os nomes citados pelo funcionário dos Correios que recebe propina são do PTB. Roberto Jefferson me cita para dizer que eu é que mandei fazer aquela investigação. Ora, não vem ao caso se isso é verdade ou não, mas se eu teria mandado investigar, como posso estar envolvido na corrupção?

Os nomes citados na CPI dos Correios são outros. Não fui citado até agora por nenhum depoente. Por que ir lá?

A CPI do Mensalão é outra coisa. Vou ao Conselho de Ética. Não vejo problema nisso. Sou deputado, tenho o maior apreço pela Casa, como não poderia deixar de ser. Vou lá, tenho obrigação de ir e darei todas as explicações.

Vou dizer o óbvio: não tem mensalão algum, nunca teve e tenho certeza de que nunca haverá. Um esquema corrupto desse seria inadministrável! Isso é loucura, fantasia pura.

As oposições viram nessas denúncias uma oportunidade de carimbar o governo do presidente Lula. Mas para derrotá-lo vão ter que vencer nas urnas. Não tem essa conversa de tirá-lo do poder antes.Se tentarem fazer isso, vão incendiar o país, eles sabem disso, e eu vou estar na linha de frente para impedir isso. Se tentarem fazer isso, se o PSDB tentar, fiquem certos de que eles vão passar dez anos sem voltar ao governo, porque esse país vai ficar um furacão. A democracia levou tempo demais para se consolidar e não vai ser qualquer luta política que vai pôr fim a ela!

O PT tem de se explicar. Eu tenho falado isso para todos os companheiros. Se eu estivesse no comando do PT, se o Tarso Genro estivesse no comando do PT, essa loucura não tinha acontecido. Jamais teríamos dado tanta autonomia assim, para empréstimos tão altos. Nunca. Mas eu não podia mais me ocupar do PT e, institucionalmente, nem podia, porque estava no governo. Me afastei totalmente do partido.

Tão falando em Operação Uruguai, mas não é nada disso. Os empréstimos, eu soube agora, existem, estão registrados no Banco Central. A Operação Uruguai foi forjada. Como é que se forjam contratos de empréstimos no sistema bancário oficial, monitorado pelo Banco Central? Isso é balela, e tudo vai ficar esclarecido. Podem dizer que os empréstimos foram uma loucura, mas eles existiram, oficialmente. Isso de Operação Uruguai é besteira, vai tudo ficar claro.

Genoíno, coitado, está sofrendo muito, ele nem tem saúde para aguentar o tranco. Temos de dar suporte a ele nessa hora. Ele de fato não se envolveu nisso. O estilo dele é fazer política e não se envolver nessas questões. Foi omisso. Isso eu digo, com pena, mas digo: foi omisso, uma loucura.

Agora, não adianta chorar. Eu tenho falado para os companheiros. Quem pegou dinheiro para campanha tem de assumir. Não adianta negar, porque mais tempo menos tempo isso virá à tona e não adianta mentir. O pior é parecer que foi mensalão ou dinheiro de corrupção. Não foi. Os deputados do PT que sacaram o dinheiro no banco fizeram isso para as campanhas do partido. E devem assumir. Nem todos, é verdade. Tem dois ou três que não fizeram. Mas os outros devem assumir. E dizer claramente que o que fizeram todo mundo faz, porque o sistema político-eleitoral brasileiro leva a isso. Erramos, mas todo mundo errou. Ou vai dizer que os outros partidos resistem a uma investigação?

O que tem de mudar é o sistema político-eleitoral. As campanhas ficaram caras, o preço da democracia ficou muito alto, ninguém suporta os custos de uma campanha.

Showmício hoje é como um grande festival de Rock que é caríssimo, mas financiado por ingressos, por merchandising, por direitos de transmissão. Showmício custa igualmente caro mas é de graça, totalmente bancado pelas campanhas. A campanha na televisão é cada vez mais cara. Ninguém suporta e acaba gerando isso que estamos vendo. O PT está sendo o alvo hoje, mas qualquer partido poderia ser o centro das denúncias.

Acho positivo o Delúbio ter assumido isso. Foi errado, mas é melhor dizer a verdade. Não tem estratégia alguma de assumir o crime menor para esconder o maior. A estratégia é a verdade, é dizer a verdade: se erro houve, foi esse o erro. E isso vai ficar transparente nas investigações. Tem um monte de companheiro sofrendo. Gente que foi remunerada pelo partido com esse dinheiro não declarado e, agora, enfrenta o dilema: ou passa por corrupto ou assume que recebeu o dinheiro pelo seu trabalho legítimo, mas ‘por fora’. Não tem jeito. Quem recebeu sem ser pelos trâmites corretos, tem de admitir, retificar na receita, pagar os impostos. É tudo coisa pequena, tudo pagamento pelo trabalho legítimo pelo partido. Mas como o PT não tinha caixa, tinha de pagar dessa maneira. Agora, tem de enfrentar, admitir e retificar na Receita.

Eu estou tranquilo. Sei que vou levar uns dois anos para me recuperar politicamente, mas vou me recuperar. Tenho forças, já aguentei tranco pior. Vou aguentar mais este.

É por isso que estou calado, não adianta falar agora. Mas vou lutar, porque quem é inocente não teme nada. E eu sou totalmente inocente. Nunca me aproveitei de dinheiro público. Nunca me sujei.

Essa história de dizer que se eu depuser vou botar a boca no mundo, falando cobras e lagartos, como o Jefferson, é falsa, porque eu não tenho o que falar, não tenho podridão nenhuma escondida de nenhum companheiro. Mas tenho dos adversários. Tenho uma lista das nomeações que o Jefferson queria que fizéssemos e que não fizemos porque os indicados não tinham reputação ilibada.

A imprensa à época escreveu páginas e páginas dizendo que os aliados estavam insatisfeitos porque nunca demos nenhum ministério com porteira fechada: a diretoria era sempre pluripartidária, para evitar conluio, para que um controlasse o outro. Sempre se queixavam de que nós dávamos a presidência, mas segurávamos algumas diretorias, para controlá-los. Como é que agora viramos corruptos? Isso não faz sentido.

Vamos ter muita luta pela frente. Mas eu sei lutar. Quando se tem o bom propósito na cabeça, a força não nos abandona.

Eu tenho me dedicado aos meus afazeres de deputado. Ando pelas ruas sem nenhum problema. Vou a todos os lugares. Pego aviões em aeroportos lotados. E nada me acontece. Claro, um ou outro se aproxima para conversar, mas sempre gentilmente. Uma vez ouvi alguém dizer que estava decepcionado. Eu dialoguei, conversei, expus meus pontos.

Essa história de quem tem sósia meu levando tomate podre é mentira. Dupla mentira: primeiro, porque acho que o sujeito não é meu sósia; segundo, porque a história só pode ser inventada. Ouço críticas aqui e ali, mas sempre com muito respeito. Essa é uma característica do nosso povo.

Passo os dias me preparando para a luta. Lendo meus livros. Li a biografia do Fidel, escrita pela Cláudia Furiatti. Agora, estou lendo o livro sobre a Coluna Prestes, do Domingos Meirelles. Por essas duas leituras, as pessoas podem ter uma idéia da minha disposição.”


Fonte:Globo Online

16 de dez. de 2004

Bush II

Bush II
As eleições norte-americanas confirmam que a democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos

Ignacio Ramonet

A reeleição, no último dia 2 de novembro, de George W. Bush para a Presidência dos Estados Unidos constitui uma afronta ao espírito da democracia norte-americana, a mais antiga do mundo e, por isso mesmo, sua referência primordial. É evidente que, tecnicamente falando, não há – desta vez – o que reclamar. Ninguém pode contestar o caráter legítimo da votação. Usando de seus direitos, os eleitores escolheram segundo seus desejos1. Nem por isso esta eleição é menos inquietante, e até chocante. Confirma que a democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos.

É realmente preocupante que Bush, conhecido por seu fundamentalismo religioso, por sua mediocridade intelectual e por sua incultura, tenha sido o candidato mais votado da história eleitoral norte-americana. Principalmente por ter enganado seu povo e mentido ao Congresso para conseguir autorização de conduzir uma “guerra preventiva” (não autorizada pela ONU) e invadir o Iraque; por ter incentivado um uso desproporcional de força, provocando a morte de milhares de civis iraquianos inocentes2; por ter ignorado a “ordem executiva” de 1976 do presidente Gerald Ford (ainda em vigor e que proíbe os serviços secretos de assassinarem dirigentes políticos estrangeiros) e ordenado a execução de supostos “terroristas3”; por ter violado as Convenções de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros de guerra; por ter permitido a prática de tortura na prisão de Abu Ghraib e em outros centros de detenção secretos; e porque ressuscitou o espírito do macartismo, que consiste em considerar culpado qualquer cidadão que possa ser suspeito de manter vínculos com uma organização inimiga.

Plebiscito da ilegalidade?
Com um quadro de honra de tal maneira sinistro, qualquer outro dirigente seria declarado pouco recomendável e banido do mundo civilizado. Não George Bush que, além do mais – e enquanto presidente da única hiperpotência mundial – ocupa o lugar central do dispositivo político internacional.

Seu segundo mandato promete dar continuidade ao anterior. E as duas primeiras nomeações de ministros confirmam que Bush interpreta sua vitória eleitoral como um plebiscito à sua política. A escolha de Alberto Gonzales para o Departamento de Justiça, por exemplo, constitui uma resposta de desprezo a todos os que criticam a tortura em prisioneiros acusados de terrorismo. Isso porque, na condição de assessor jurídico do presidente, o próprio Gonzales foi o autor dos dispositivos legais que permitiram contornar as Convenções de Genebra – qualificando de “inimigos combatentes” os prisioneiros das guerras do Afeganistão e do Iraque – e da criação da base de Gunatánamo. Contrariando a legislação norte-americana e os tratados internacionais, Gonzales não hesitou em suspender a proibição de que fossem exercidas “pressões físicas” sobre esses prisioneiros sob o pretexto de que “na condução da guerra, a autoridade do presidente é total”.

Limites do instrumento militar
Quanto à nomeação de Condoleezza Rice para o Departamento de Estado, é impossível não ver na medida uma reivindicação do unilateralismo puro e duro defendido pelos republicanos autoritários do círculo presidencial e que parecem confirmar novas ameaças contra o Irã.

No entanto, a incapacidade das forças armadas se imporem no Iraque contra os insurrectos prova os limites do instrumento militar. Constatação que também se pode fazer em Israel, no momento em que desaparece Yasser Arafat, o general Ariel Sharon, principal aliado de Bush no Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense constata que a capacidade de sofrimento dos palestinos continua superior à capacidade de destruição de seu exército. Saberia ele compreender as conseqüências disso?

Seria Bush capaz de acabar reconhecendo que os aspectos negativos da globalização (pobres cada vez mais pobres, injustiças planetárias, rivalidades regionais, desequilíbrios climáticos etc.) podem degenerar em conflitos caso não se consiga uma mediação conjunta multilateral? Ou que uma potência não pode pretender impor a lei sozinha?

20 de out. de 2004

Mídia insiste em beneficiar Serra

MÍDIA INSISTE EM BENEFICIAR SERRA, DIZ PESQUISA

A pesquisa divulgada hoje (15) pelo Observatório Brasileiro de Mídia (
www.observatoriodemidia.org.br) sobre a cobertura das eleições municipais de São Paulo mostra que a grande imprensa continua favorecendo a candidatura de José Serra (PSDB). O estudo é referente às matérias publicadas entre os dia 4 e 10 de outubro e foi realizado por uma equipe de alunos de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, sob orientação do professor José Coelho Sobrinho. Foram analisados os cinco maiores jornais paulistanos: Agora São Paulo, Diário de S.Paulo, Jornal da Tarde, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.
De acordo com o morfômetro - critério desenvolvido pelos pesquisadores da USP para aferição qualitativa das matérias sobre as eleições –, entre as matérias que citam o José Serra, 14,06% são negativas, 44,86% neutras e 41,09% positivas. Já entre as reportagens sobre a candidata Marta Suplicy (PT) 40,36% são negativas, 44,40% neutras e 15,24% positivas.
O estudo mostra que o Estado de S.Paulo publicou o maior número de matérias negativas sobre a candidata petista: 66% das citações de Marta foram negativas. No JT, o índice foi de 38% e, na Folha, 34%. O índice mais baixo se deu no Diário de São Paulo (20%).
Em relação às matérias positivas sobre Marta, o índice ficou entre 10% e 15% em todos os jornais analisados. Quanto à Serra, o índice variou de 25% (Agora) a 40% (Folha).
A Folha foi também o jornal que publicou o maior volume de matérias neutras sobre os dois candidatos: 85,13% sobre a “candidata Marta” e 69,63% a respeito de Serra.
Além das matérias sobre os dois candidatos, a pesquisa analisa também as referências diretas ou indiretas à administração da prefeita Marta. Por exemplo, a partir de uma reportagem sobre a dificuldade na reparação de buracos no asfalto do município foi gerado um registro para a Marta “prefeita”. Assim, “Marta Prefeita” obteve 60,05% de matérias negativas,contra 20,61% de neutras e 19,34% de positivas.
O morfômetro é o diferencial dos levantamentos realizados pelo Observatório Brasileiro de Mídia em relação a outros estudos semelhantes. O critério funciona da seguinte maneira: além da tradicional classificação entre as categorias positiva, neutra e negativa, o trabalho traz uma escala de valores. O recurso permite que seja atribuída uma nota de 2 a 10 a cada matéria, de acordo com sua localização na página e com os elementos gráficos, como foto e outros recursos gráficos, como trechos em destaque.
Os pesquisadores também trabalharam com números absolutos. Os resultados dentro desse critério de avaliação mostram que a “candidata Marta” somou 185 matérias negativas e a “prefeita”, 67. Enquanto a respeito de José Serra foram 55 desfavoráveis. Em relação às positivas os números foram: 67 referentes à “Marta candidata”; 22 à “Marta prefeita” e 161 a José Serra. Proporcionalmente, José Serra foi o candidato que mais se beneficiou com as matérias neutras: 185 matérias citam o candidato sem dar conotação positiva ou negativa. Enquanto “Marta candidata” obteve 210 citações neutras e “Marta prefeita”, 24.
A coordenação geral do estudo é do jornalista Carlos Carolino. Os resultados completos que mostram a cobertura de cada candidato por veículo pesquisado desde o dia 26 de setembro estão disponíveis na página do Observatório Brasileiro de Mídia:
www.observatoriodemidia.org.br

2 de set. de 2004

Corrupção na Flórida

Porque o sistema eleitoral da Flórida é tão corrupto?

Depois do escândalo das últimas eleições presidenciais no Estado da Flórida que levou a uma recontagem de 36 dias. O eleitor norte-americano vai descobrir que pouco foi feito para tentar impedir os 'erros' cometidos em 2000.

Desde 2002 que novos sistemas de vottação foram testados na Flórida, todos sem sucesso. Sistemas de leitura digital falharam sistematicamente nas primárias de março deste ano. E o que vai fazer o poder estadual? Impedir a recontagem das máquinas que derem problemas. Ou seja, ao invés de tentar garantir o voto a todos os cidadãos aptos à esse exercício, irão fazer o contrário. No plesbicito venezuelano de 2004 essas máquinas foram utilizadas, com êxito, e ainda davam um recibo, para uma futura recontagem. Será o medo que leva o governador da Flórida, Jeb Bush, a evitar a recontagem?

Há também o voto por correio, que até então era o mais segura pois obrigava a presença de uma testemunha, mas, recentemente o proeminente governador e irmão do presidente ianque, sancionou uma lei que dispensa este reconhecimento formal do eleitor.

A democracia norte-americana é tão magnífica que desde 1845 que os mortos da Flórida participam de votação e ajudam a eleger seus governantes. Abram os olhos, pois é este tipo de democracia que anda sendo vendido pelos jornais como o supra-sumo dos sistemas de governo.

O mais tocante é que a Flórida é um dos sete estados daquela federação que não atualiza automaticamente a lista de votantes libertados da prisão. E para conseguir o seu direito de volta, tem que ultrapassar árduos obstáculos. Como disse um funcionário do Departamento de Correção da Flórida, 'o irmão do presidente decide quem vai votar e quem não vai'. Como mais da metade da população da Flórida é de afro-americanos que, em sua maioria, votam nos democratas, já viu o que vai dar. As últimas contagens indicam que por volta de 600 mil eleitores não poderão exercer seu direito de voto em noembro próximo.

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