12 de fev. de 2003

Joemir Beting hoje no Globo, 12 de fevereiro de 2003

“Ainda nesta década, os gastos militares dos Estados Unidos serão maiores que os gastos militares do restante do mundo”

ARTURO VALENZUELA, da Georgetown University

Indústria do medo

Para que a eclosão dessa guerra de padrão isquemia cerebral transitória? Basta a atual decretação do “estado de guerra”, com direito a um “alarme laranja” de quatro horas, na tarde da última sexta-feira (eu estava lá, em Nova York), para justificar no Congresso, na imprensa e na cidadania a nova espichada do já paquidérmico orçamento militar dos Estados Unidos.

Yes , exatamente nesta semana de dentes, garras, barris e fuzis arreganhados, desembarca no Congresso americano o orçamento federal para 2004. No ventre dele, a pesada conta da rubrica Defesa Nacional, vulgo ervanário do Pentágono. Um aumento de “apenas” 4,4% para os gastos militares, agora recalibrados em US$ 390,4 bilhões no interior de um orçamento federal da ordem de US$ 2,231 trilhões.


***




Eis a questão. Joga-se com a recarga do Efeito Saddam para a reversão de uma tendência natural de redução dos gastos militares em todo o mundo, incluído o planeta China. A pax americana, pós-queda de muros, de pontes e de torres, vai consumir 3,4% do PIB projetado para o ano que vem.


***




A exposição de motivos do Pentágono joga com a teoria romana do “capacete do mundo” — agora que europeus e asiáticos, neste replay iraquiano, reafirmam a posição assim filosofada por Adoniran Barbosa: “Bom de briga é quem tira o corpo fora”. Vai daí que os auditores do Pentágono avisam que, ainda nesta década em valor corrente, a Defesa Nacional estará desfrutando de meio trilhão de dólares por ano.


***




Dá para encarar? Enquanto os Estados Unidos empenham 3,4% do PIB em gastos de guerra em tempo de paz, a União Européia contenta-se com a média ponderada de 1,8%, o Canadá nada além de 1,4% (sob o guarda-chuva do vizinho fanfarrão), o Japão sente-se seguro com 0,8%, a Rússia (o urso soviético que virou bode capitalista) baixou a crista de 14% para 1,7% e a China comunista... bem, é segredo de Estado. Afinal, qual é o PIB da China?


***




Esses dados relativos não valem um bodoque em matéria de guerra. O poder de fogo é medido em valores absolutos. A potência dissuasória do Pentágono em pessoal, pesquisa, logística, arma, munição e suporte, dentro e fora de casa, vai subir para R$ 390,4 bilhões em 2004 — com ou sem um novo piparote em Bagdá agora em 2003.


***




Sem entrar nos diferenciais de qualidade do gasto ou de eficiência da máquina, vale um grifo curioso: o aparato científico-tecnológico de aplicação militar ostensiva mobiliza mais de US$ 55 bilhões por ano e corresponde a US$ 28 mil por soldado — contra US$ 7 mil na Inglaterra ou na França.


***




No mais, são 1,4 milhão de homens e mulheres com crachá da Defesa Nacional. Dos quais, 285 mil estacionados em 727 instalações militares no exterior. Inclusive, Cuba.

SOBREMESA: Penada legiscrativa de novembro de 2001, fumaça densa ainda exalando das entranhas revolvidas do World Trade Center, estabelece que, em caso de eclosão de guerra real, relâmpago ou encrencada, os gastos adicionais podem trafegar por fora dos limites do orçamento militar em curso. Nesta bola da vez do Iraque, a coisa oscilaria de US$ 50 bilhões a US$ 170 bilhões.

OVERDOSE: Peritos militares sustentam que os Estados Unidos estão realmente empenhados em matar rato com tiro de canhão. Pelo tamanho, formato e conteúdo do arsenal já disponível em terra, no mar, no ar, no espaço sideral e no mundo virtual, bastaria um quinto dele para garantir a autopromoção de “fiscal do Universo”.

BIGBUSINESS: O problema é que a opinião pública americana sabe que o Pentágono garante 11 milhões de empregos diretos e indiretos e realiza o “espírito de fronteira” da nação na vanguarda chipada das conquistas científicas e tecnológicas também para uso civil.

Nenhum comentário: